26 abril 2006

25. As flores da rua


Olho para cima, para a nuvem branca com forma de urso polar que cruza o céu azul sobre mim, enquanto os pardais saltitam pela calçada a chilrear. Os meus passos demoram-se na mais tripeira das ruas, o olhar perdido no reencontro das construções seiscentistas e nas varandas onde noutras eras suspirou o amor na Rua das Flores. Mais adiante, três mulheres idosas estão à porta de uma casa e conversam entre risos, sob o aroma das flores que se eleva no ar e volta a escorregar silenciosamente dos telhados para a rua.

Um homem vem a descer a rua na minha direcção e detém-se regularmente, tomando notas num bloco imundo e semi-desfeito, olhando à esquerda e à direita, como se estivesse indeciso. As cãs desgrenhadas ofuscam ao sol como uma clara de ovo, os óculos têm a armação remendada e a roupa que veste está puída e sem memória de côr. Olha para mim um instante, quase me cumprimenta mas depois coça a cabeça e volta a escrevinhar algo antes de recomeçar a andar. Aquele olhar ausente dispensa qualquer conversa, a razão vive quase sempre mais nos nossos olhos do que nas nossas palavras. Observo-o a distanciar-se, uma silhueta alienada que segue no lado do sol do passeio, pontualmente investindo até ao meio da rua para anotar algo, e com isto espavorindo sempre os pequenos e assustadiços pardais.

As três mulheres que estavam à conversa aproximam-se de mim lentamente, observam o pobre homem e meneiam a cabeça, uma delas tenta exprimir o que sente com a sua mão pousada sobre a boca. Contam-me à vez a história do homem que perdeu a razão quando a noiva o recusou nos dias de juventude, negando para todo o sempre o enlace sonhado. De longe a longe o homem volta a percorrer a rua, dizem, de bloco em punho, a tentar encontrar em alguma poeirenta arrecadação da sua memória o número da casa onde a sua noiva vivera. Anota todos os números dos prédios e das moradias, registando qualquer dado que possa reconhecer. Dezenas, centenas de números, escritos numa caligrafia senil, certamente sobrepostos e repetidos até à exaustão, uma busca inútil da inexistente chave que abrisse as portas do Tempo e da faculdade dos princípios. Os anos de ausência, o regresso da guerra colonial, a recusa, o horror da solitária vivência em hospitais psiquiátricos, a loucura e a pobreza. A vida torna-se morte em vida, o que se é resume-se a um rabisco sem sentido num papel amarelado e sebento.

Observo uma poça de água no passeio a reflectir todo o fulgor do sol enquanto ouço as últimas palavras das mulheres. Depois despeço-me e quando vejo os sorrisos engelhados daquele trio de pequenas anciãs, sorrio em resposta pois as pessoas do Porto são afinal o melhor que esta cidade tem. Quando começo a andar lembro-me de alguém me ter contado que era na Rua das Flores que outrora havia lojas de panos que vendiam às raparigas casadoiras os enxovais que constituíam o seu dote e sorrio outra vez, mas desta vez sem nenhuma alegria. As sardinheiras debruçam-se nas varandas como se ouvissem as histórias da rua e há pétalas vermelhas no chão. Talvez por cada pétala caída nasça uma nova esperança algures, talvez haja sonhos que também assomam às varandas das casas antigas da Rua das Flores, imaginando onde vão ressuscitar na próxima alba.


katraponga dixit

14 abril 2006

24. Noutra Jazida

Existe uma forma mais interessante para dizer isso. Existe, mas não se usa. Existe uma canção para acompanhar essa batida, contudo, e também, não se cria. Existe uma infinidade de coisas para reinventar um monte de coisas mas que por algum motivo preferimos os vínculos com as formas antigas. E nisso somos iguais aos outros tantos que se parecem a nós mesmos. Suor, temor, passividade e obediência. Somos idênticos. De acuados como coelhos à preservação contra as limitações, somos idênticos. Em respostas que já sabemos e perguntas prudentes, definitivamente fazemos parte da mesma caterva de indigentes. Nas previsões nefastas, sem valor agregado algum, escolhemos as mesmas quando o que nos toca é extinção, esvaecimento ou avaria. Presos ao mesmo motor, ligamos as hélices de um que-se-foda enquanto afundamos em remordimentos. Dores inúteis, só pra deixarmos a coisa rasgar por dentro, devagar, como toda sentença avara que só nós sabemos reservar a nós mesmos.

Pelas consoantes dessas tintas chegamos a um quadro no mínimo esquisito, o dos poemas que só navegam e prosas morosas sucessivas de sombras sem nenhuma eficiência, senão aquela para ficarmos sangrando na merda das feridas. Se estancar fosse algum método avançado que se aprende sem se descascar a própria pele, talvez valesse a pena lê-los, flanar em movimentos que não são nossos, mas cuja rotação por alguma razão desconfiamos pertencer. Mantemos com ela uma junção fecunda que se constrói enquanto é o outro que vai caindo, uma vez que para existir na gente esse outro precisa sentir muito parecido. O mal que ele devassa tem o mesmo cheiro, a mesma textura daquilo que nos consome vivos, lúcidos e mortais. Absolutamente mortais, sem honras nem créditos que uma brochura qualquer possa ter. Por isso escrever só vale para quem acha que ordena a vida em capítulos a fim de observar os círculos do seu tempo, entrando e saindo dos seus infernos, mostrando por onde se entra e como se sai. O resto é comentário disperso, permanente e pobre, despojado da realidade de como nos extinguimos na nobreza de um verso. Ou de uma frase, bem humana, quando nos mandam para o inferno.

Esse é o limite que se impõe a quem sente e escreve. Elisa nos meus braços é quente, Elisa no teclado é uma sensação que se descreve, mas poucos sentirão o calor da Elisa como eu quando a tive por perto. E se hoje ela anda sumida, a quem importa esse fato senão àqueles que um dia tiveram uma Elisa quente nos seus braços? Que para lembrarem-se dela irão me ler só para não deixarem envelhecer os braços, a quentura, que não é da minha Elisa, mas a deles, para quem eu não criei um roteiro que mostrasse como eu estou caindo sem a minha Elisa quente e longe dos meus braços. Não há orgulho mais exilável do que ter sentido algo, escrito sobre esse algo, mas que serve apenas para deixar entrecerrado o desamparo. Melhor foi ter sentido, sem que ninguém soubesse, pois quem me remete para esse fogo sou eu, sem necessitar de escrita, páginas de justificativas de como se perde quentura, braços, Elisa e perto.

Por isso que das perdas e suas baldeações trato-as como lendas. Dizem que foi, afirmam ter visto, era uma vez uma fome e a saciaram para sempre, pois não me satisfaço com restituições de esperança, sobrevidas de farturas, fugas, transportes e pretextos. De séculos venho amando o real, obstinado com o sustento real, na mais rasa motivação real, sem prolegômenos frugais como antepasto ao massacre de realidades que engulo depois. Quando eu afundo, afundo porque quero e fico lá não por conta de um poema que eu leio como peixe num aquário ou prosa erudita num acadêmico enferrujado. Fico no fundo porque a realidade queimou, bateu aonde não deveria, e por instinto ou passageira confusão, fico lá, por algum tempo. E ninguém vem me resgatar porque ninguém me levou pra lá, nem Elisa, nem braços, mas uma quentura desbocada gritando Você se fodeu, Você se fodeu. Por isso é que eu digo: alguns nascem para narrar o passeio, outros para morrer no passeio. E outros, os reais, para desfrutar do passeio. No gozo. Sem os círculos e os capítulos, subindo e descendo nesse andaime que só nós conhecemos, sua arquitetura, seus extremos, do chão ao mais dourado dos mundos. Real e deliciosamente por dentro.


Ilidio Soares dixit