1
lume
de secreta e líquida língua
nome
que procura a água de uma boca
ou
um lugar no corpo
que preceda em sede
o amor
: amo esse instante
a brevíssima pausa antes
da nomeação
2
sobretudo e ainda mais
um dia
arrancado palavra a palavra
a este poema
: sobretudo e ainda mais
o segredo de um nome
murmurado gota a gota
entre ti
e a distância
quase imperceptível
entre ti
e mim
sobretudo.
e ainda mais,
amor.
3
em dias como este
lentos
lisos
brancos e quentes
pela chaminé de casa sai um sussurro
um restolhar brando
quase de pássaros
quase de árvores
quase de flor
: cá dentro
o meu anjo
despe as suas asas
e um vento brisa se alevanta
nas planuras do meu ventre
a tua voz o riso manso dos teus olhos
os teus beijos de plumas e de sossego
crescem em mim como mãos
: no fundo que me é terra
filhos raízes desbravam-me os nomes
e copas cópulas de sol
e mar de marés
vêm ver morrer devagar
toda a água da boca
na praia dourada do corpo
(sob a tua língua
amado
eu escrevo vales
concâvos desejos
ou
promontórios de luas e pequenos segredos)
4
quando em abraços por fim
nos caímos
um do outro por fim
saciados
descem por meus olhos os ténues fios
que te hão-de crescer
em novas sedes
em novas águas
e tu
devagarzinho me alisas
a curva mansa destas lágrimas
com abraços longos
beijos e murmúrios apertados entre a carne
como a terra dá ao mar em dias assim
parados
muito parados
quase imóveis
5
não sei de hora mais hora em mim que possa
com o ir
e vir das horas e das marés
ser mais mar
mais outra coisa
que o amor em refluxos
de sal e onda
que o amar-te por sobre o dia
e por sobre o tempo do dia
que olhar o infinito do ir e vir
aqui
perante as ondas
perante o mar
e descobrir que sobram sempre
mais dois
mais dois
mais dois de sal e de marés
mais dois de sal e de marés
e de tempo que se desfaz noutra e ainda
mesma coisa
como areia da praia toda líquida
ou água de mar toda verde
que esconde em si todo o sol
e todo o azul
de céu
infinito
: não sei de outra coisa
amor,
que amar o mar e o amor
amar-te no mar
deste amor
e assim erguer o meu corpo
perante o dia
blimunda dixit
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06 agosto 2006
20 junho 2006
27. de um solstício. de uma lua cheia. de um verão
virão os dias mais curtos. mas agora
escrevo-te
que o sol incha em solstício
e a lua
prolonga-se no céu
aqui nas arribas
onde o vento fustiga dois aloés
e eu parada escuto
os gritos curvos das gaivotas. está frio.
por cima das águas eu vejo caminhar
essas horas esborratadas de anil
lilás
e nomes. pescadores lançam linhas
transparentes rotas entre o céu
e o mar e o silêncio que os habita.
cheira a maresia
cheira a monte à beirinha do sal
cheira a um sol que vem
lenta
lentamente acariciar o meu corpo. maravilham-me
estas horas roubadas
este momento em que dizemos
já é dia meu amor
se tivessemos amor a quem devotar
o dia e as horas do dia
a cor inaugura-se limpa
inchada de importância:
cai um só nome e deixa-se ficar
entre mim e as asas curvas das gaivotas
eu sei
hoje o sol esqueceu-se de si
e brilha equivocado
noutro lugar
assim
és tu
assim
sou eu
e a revolução dos corpos
dá-se em permanência:
verão
virão os dias mais curtos. depois.
----
encontrado em formato de comentário aqui
blimunda dixit
escrevo-te
que o sol incha em solstício
e a lua
prolonga-se no céu
aqui nas arribas
onde o vento fustiga dois aloés
e eu parada escuto
os gritos curvos das gaivotas. está frio.
por cima das águas eu vejo caminhar
essas horas esborratadas de anil
lilás
e nomes. pescadores lançam linhas
transparentes rotas entre o céu
e o mar e o silêncio que os habita.
cheira a maresia
cheira a monte à beirinha do sal
cheira a um sol que vem
lenta
lentamente acariciar o meu corpo. maravilham-me
estas horas roubadas
este momento em que dizemos
já é dia meu amor
se tivessemos amor a quem devotar
o dia e as horas do dia
a cor inaugura-se limpa
inchada de importância:
cai um só nome e deixa-se ficar
entre mim e as asas curvas das gaivotas
eu sei
hoje o sol esqueceu-se de si
e brilha equivocado
noutro lugar
assim
és tu
assim
sou eu
e a revolução dos corpos
dá-se em permanência:
verão
virão os dias mais curtos. depois.
----
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blimunda dixit
27 março 2006
21. DENTIÇÃO INCOMPLETA
*o amor é tudo – excepto o que deveria ser * luísa monteiro
comíamos nêsperas maduras sentados no muro
ensolarados de tanto abismo lá em baixo
de tanto sol lá em cima de tanta doçura de frutos e de tantos dentes de morder frutos e línguas de chupar sumo de frutos maduros e tu
: à noite sonho com peixes e abismos de mar e ventres de mulher e brancuras de beijos de mulher e filhos peixe de ventres líquidos de mulher
mas
sabes, a noite tem pernas curtas como a mentira
a morte
vem sempre primeiro como uma manta de papa e dedos ásperos
o tempo nunca chega e é sempre como o sumo
a escorrer
às vezes doce
às vezes só maduro
e sobra sempre tudo que é a morte.
a minha canta-me
dorme meu menino de oiro e até parece dois olhos grandes e umas mamas de leite branco
quente quente, mas não é, não é,
e, sabes,
nunca fiz um filho
nunca nunca
fiz um filho
e eu
: quando eu morrer quero ser cremada e soprada em cinza de ramo de nespereira maltratada. sabes
as nespereiras mais maltratadas
dão as nêsperas mais doces
e tu
:cuspo sempre caroços grandes grandes demais para a minha boca
e o céu da boca fica maltratado de tanta semente
assim
gorda
como palavras doces e inchadas à procura de nome
dizes
: nunca nunca fiz um filho
ainda assim
sonho com mamas grandes de um leite branco
e abismos que são ventres líquidos de mulher
e têm dentro peixes com olhos
exactamente iguais aos meus. estranho
o nome de uma mãe
desenha-se na minha boca quando chupo desse leite
branco
e nado nesse ventre líquido ao lado dos peixes
com olhos exactamente iguais aos meus. mãe? sim?
nada, não é nada.
eu
:sei que a
minha morte tem a minha cara e o nome que
não me dei e a minha própria boca cheia até ao céu de palavras
doces
inchadas de todos os nomes
excepto os que deveria ter
por exemplo
:amor.
que é quase tudo
excepto o que poderia ser.
primeiro:
está frio. e é noite. está tanto frio que me doem as letras nas articulações entre parte de
uma palavra e
outra.
frenéticas de dedos e pensamentos mancham a noite. a fingir de dia. o meu gato também finge
cloacas à noite
em equilíbrio sobre os muros de paredes estreitinhas
corre e não corre
e dá-se em fodas tão fingidas como estas palavras
(invento-me. e sobra-me sempre tudo)
para afugentar a pretidão da noite
a pretidão
o olho do cu do meu gato é um enorme vazadouro de pretidões e ele importa-se lá
foder
é para nós
que não somos gatos e temos cloacas ou olhos de cu
e medo da morte.
neste janeiro em março
oiço-lhe um longo miado.
enrabada na noite
a morte que dele espreita sai com passinhos leves
não faz um filho
não
não precisa.
a herança de um gato é sempre a própria morte
simples
branca de leite e quente quente. pequenina.
a minha
não. a minha morte é enorme como dois olhos vazadouros de palavras sem nome. e peixes com bocas cheias de palavras tão sem nome como as minhas. por exemplo
: o tempo do tempo todo
escorre-me dos dedos
como as nêsperas em sumo nos escorrem
sentados
ensolarados e
cheios de abismos com mães por dentro
mãe?
sim?
nada, não é nada
segundo:
o mar. ecoa contra as arribas desta terra
aqui
e dá-se em orgasmos de sal que se colam às janelas da nossa casa corredor. contemplo
esse som colado ao vidro e sei que é por causa do sal
suor cuspo lágrimas tudo
de tudo
que o vento é maresia
: sinto o meu ventre como maré de mar
que vai e
vem. em ondas de tempo salgado e luas e sóis e ainda outras e mais luas e
outros e mais
sóis. o meu sexo incha e dá-se
em águas salgadas
e em palavras que me escorrem pelos dedos como filhos
peixes maduros
de olhos exactamente iguais aos meus
mas
nunca nunca fiz uma palavra que fosse um filho teu maduro
ainda
de doce e nome por dizer
e do amor sobra-me sempre tudo – excepto o que deveria escrever
por exemplo: tenho todo o tempo para te dar
e
se escrevo é para inventar esse abismo em que
as águas da minha morte se separam.
por cima um céu de boca a escorrer sumo
por baixo um imenso olho em que a terra se abre
como um ventre líquido de mulher
com mães por dentro
e
a morte é apenas mais uma parideira
da minha noite noite e da minha noite dia
caminho por cima das águas e os dedos
gritos prolongados de gaivotas
são apenas asas curvas e ponteagudas que furam a própria pretidão
mãe?
sim?
nada, não é nada
terceiro:
sabes que usa uma espécie de cola que mantem os dentes falsos na boca
para quando falar mentir
com todos os dentes que tem no céu
da boca?
a dentição incompleta e por cada falsa
verdade um pensamento é arrancado à terra límbica que são os céus todos líquidos de uma mulher por dentro. acorda, vá, o veludo listrado de esperma vermelho
do sofá
grita em mãos e em bocas: que será que acontece ao tempo todo ao tempo
de tudo
quando já não temos dentes de morder e deixar que o sumo escorra
pelos cantos da boca cloaca mundo todo? é assim
a minha boca como o tempo todo esvazia-se e fica só um céu por cima e águas que já não se separam
e onde o branco branco
quente
é o teu e me escorre em não palavras em não nomes
e o tudo que é
excepto o que deveria ser
anda
vamos lagartear ao sol e deixar é cair uma parte de nós
essa que é tudo o que deveria exactamente ser
como cometa lagartixa e
rir
que a cauda de uma lagartixa cresce ainda que arrancada
quem me dera que o amor fosse assim, digo
pois, dizes,
um tempo esperma vermelho
de mãos e bocas
caudas cometas de lagartixa e miados
de gritar e foder a morte
quarto:
meu homem, diz lá
se te comer do pão com a boca toda e te beber
três vezes do vinho
com a boca de dentes toda
achas que vou direita ao céu da boca do teu amor?
sei lá,
depois de sonhares abismos as águas entram pelos olhos
e desatam-se em palavras sem nome
e nunca mais o amor é assim uma espuma como a do mar
leve
leve
tão leve que em tempos certos até pode voar
achas que o amor que é tudo
e mais essa palavra sem nome
pode voar-me por dentro?
não, o amor é tudo excepto essas asas nos pés. tem pés de chumbo e
puxa-te para uma pretidão tão preta que nem a ti
própria reconheces. não se dá em nomes
não conhece o teu rosto. anda por lá
meio às cegas e de vez
em quando
desata-se na tua língua
desfaz-se na tua pele como outrora a espuma de mar
e
tu cais lá dentro e é como um ventre fecundo
sempre a parir dias sempre a parir noites e
depois nunca mais caminhas a não ser agarrado a esse chão
voas, se calhar voas, mas é rente, sempre rente
à cova que os teus pés marcam
porque é assim como morrer
só que antes do tempo
antes do tempo todo do tempo
olha, uma cauda de lagartixa a caminhar sozinha.
é.
último:
estou só
com o meu gato de cloaca fingida estou só
e está frio e doem-me as articulações entre um pensamento
e uma palavra sem nome. doem-me as carnes em que os pensamentos à procura de nome
se dão em palavras e dói-me o meu sexo
inchado de tanto pensamento.
a avó dizia: veste a cinta, menina, aperta as carnes
e eu:
as minhas carnes crescem no exacto ponto em que a minha cona ainda ratinha de pelo penugem
deixa ver as entranhas do meu tempo
as minhas carnes é uma nêspera ensolarada e abismada
de sumo a escorrer pelos cantos da boca céu
e a sobrar em filhos de palavras sem nome
e filhos de homem
que não é o meu
chego-me ao meu homem de cheiro a meu homem e quase
sinto o cheiro do meu futuro tempo. mordo-lhe na boca um nome
para esta palavra sem nome.
o seu sangue tinge-me a noite e
separa os abismos do tempo. o meu ventre
líquido de todas as mulheres
dá-se em espuma
sim
leve
leve com sapatinhos de cristal que até podem fazer voar
e eu
digo vem
faz-me o amor em letras de carne
e dá-me
um nome porque
está frio. frio de orvalho que pinga não pinga nos beirais da nossa casa corredor e penso que tenho para aí oito anos e de pernas nuas e saia rodada sinto um lagarto descer pela roda ó i ó ai e não sou a carolina
mas estou do lado de cá do muro de parede estreitinha e os meus irmãos a gritarem
anda lá ó cagarolas ovo podre
oito infinito
par de olhos que espreitam a minha ratinha de pelo penugem e um fiozinho de sangue que é todo o tempo que havia nesse tempo
e não menstruo
sou uma menina que não corre e está em frente a um muro de parede estreitinha e alta
muito alta
gotas de minúsculo sangue caem nos abismos da cloaca terra e
o futuro é o meu sexo amadurecido como uma nêspera maltratada
(são sementes pequeninas, meu senhor, são sementes)
e com a boca cheia cuspo dias e cuspo noites
sementes de pretidão tão preta e tão pesada como cobertores de papa
o meu sexo não tem nome. mas poderia até ser gato.
ou ter o teu. de homem com cheiro a meu homem
deste outro lado do muro imagino até que posso ter oito anos e corro pelo muro em equilíbrio atrás dos meus irmãos
anda lá cagarolas o último a chegar é um ovo podre
e as pernas nuas e não uma saia mas um lagarto a comer
me
o sangue e não menstruo é apenas um joelho esfolado
ou uma ferida de tempo no tempo
ou um futuro de filhos a escorrerem
entre as pernas e
Mãe?
Sim?
Nada, não é nada
o meu homem cheira a meu homem e dorme ao meu lado
nesta pretidão da noite com roncos brancos de mar
e sangue e sal e cuspo e esperma de onda
de onda
do meu ventre abismo saem peixes de olhos
exactamente iguais ao dele
só que os dele estão escondidos atrás do sono
e nada, não é nada
apenas o tempo a roer
me
por dentro dos teus olhos que não vejo
das tuas mãos que estão enconchadas entre as tuas mamas
pequeninas
fingidas como mamas de mulher
mãe
o meu homem que imagino ser a minha mãe
e dar-me a beber o leite quente das suas mamas fingidas e colo
de mulher.
mas não. o sono dorme-o.
e eu
: não tens útero para tanto filho,
não tens.
e caminhas com os sapatos de chumbo
do amor
essa palavra sem nome
escreve-se torto pelas linhas a direito do
meu corpo
acorda
:quando eu morrer quero-me cinza no tronco
de uma nespereira
a mais maltratada e doce nespereira
depois
come dos frutos e cospe-me
em caroços
não sementes
não sementes
ao sol
ao sol
e anda lá, vem
amar-me ainda assim
ainda que na maior pretidão
a boca cheia até ao céu
dos abismos de peixes olhos
com o tempo a espreitar por entre a morte
e essa noite de muro de parede alta e estreitinha
:do lado de cá é o amor que é quase tudo-excepto o que deveria ser
:do lado de cá são os meus quinze anos
e menstruo
:do lado de cá o tempo todo que havia de haver nesse tempo todo e
finalmente
não parir-te um filho
antes
apertar-te entre as carnes do meu próprio nome
dizes
:perfilhar-te
que é tudo o que deveria ser. o amor.
blimunda dixit
18 janeiro 2006
1. hip.ó.te.se.nu(s)@
*(se me dessem corda girava)*
blimunda dixit
porque não hão-de as histórias ser contadas se essa é realmente a sua natureza? estamos sentados à beira de um qualquer rio, num final de dia húmido. a proximidade da água dá-te aqueles tons que só existem assim. quando a água está tão em nós que quase nos desagua nos olhos em lodos profundos. nos teus emergem segredos que não querias que soubesse. é cedo, eu sei, penso. é tarde, dizes. escondes essa tua urgência de homem por detrás das lentes e espelhada passo a ver-me apenas a mim. não deves contar das coisas pelos nomes, continuas, é perigoso contar das coisas assim.
invocar, evocar, convocar: penso. como se a boca fosse um enorme buraco de fechadura. e eu espreitasse. espreito. as portas que de portas saiem, entram noutras dimensões. pertencem à memória.
inventada, dirás mais tarde,
com a tua incrível alegria de viver constróis mundos dentro de mundos. e a verdade? perguntarás também, ora, a verdade,
que coisa mais chata a verdade...será que queres ouvir falar da verdade? é que costumas morrer à segunda feira de manhã e acho mesmo que não é uma verdade que te ressuscita.
por exemplo: é verdade que também eu como o lobo antunes hei-de amar uma pedra e que essa verdade é uma metáfora insidiosa tão feia tão feia que prefiro dizer também eu hei-de amar uma pedra e pensar que o granito seria uma pedra amável.
a minha bisavó belisanda era uma mulher de fibra. dizem. porque nunca conheci ninguém que a tivesse realmente conhecido invento-lhe uma história dentro da minha própria história.
que é como tu dizes uma prodigiosa acrobacia de memória
e oplá, eis que em equilíbrio me aparece uma mulher de fibra transmontana, como só as graníticas mulheres transmontanas podem ser. o que dela me chegou às mãos são os lençóis de linho. dizem que fiados tecidos e bordados por ela. eu acredito e muitas vezes tiro-os da arca perfumada de alfazema que também sei ser o cheiro que ela escolhia para os perfumar e deito-me com eles na cama.
nessas noites a verdade da minha bisavó belisanda vem ao meu corpo. é sempre verão. cheira a esteva quente. e há águas tão mansas como rios e beira rios onde
eu e tu nos sentamos
e costumamos falar. por exemplo
tu dizes assim
gosto tanto de ti e acredito.
eu fico parada a tentar encontrar-me um nome que te explique o que realmente sou e pode ser amável. uma transmontana na transumância dos dias
cheiro a esteva e a mulher a quem os pés servem de asas. não há mistério maior que esse que uma mulher reserva para um homem. e isto eu aprendi enquanto te ouvi dizer
acredito
que não há mistério maior que uma mulher quando ama um homem.
depois seguras a minha mão e sobes pelos meus dedos como se quisesses sustentar o teu corpo todo no meu. sabes,
eu também por cá ando à procura de sustento para o meu. mas isto é segredo.
não contes a ninguém.
há muitos homens que dizem palavras capazes de agarrar dedos mãos olhos corpo todo. um diz escrevo para um pé nu baloiçando fora de um lençol. parece ter a vida toda assolada por essa nudez. é que até uma nudez pode ser escandalosa
dizes tu
tentando assim justificar porque não me devo desnudar a alma
deixando-a baloiçar
fora do lençol da minha bisavó belisanda. mas é
linho fiado tecido e bordado por ela. entendes,
casa. é casa. e nada de mal pode acontecer-nos quando estamos em casa
pois não?
eu escrevo para esses lençóis de linho. com iniciais bordadas que nunca poderiam ser as minhas. mas agora o bê é de blimunda. e de belisanda. nomes tão improváveis como as mulheres podem ser quando amam um homem e
é ele quem as nomeia.
o meu bisavô era joão baptista e dizem que nasceu com esse poder que fazia com que as mulheres desejassem o que o seu corpo todo de homem santificado pelo amor oferecia. a todas concedia um nome e a todas acreditava ter amado. morreu na cama de uma criada enquanto a montava gritando lucrécia, lucrécia. a bisavó belisanda entristeceu com tanto nome. e parece que durante muitos anos eliminou do seu vocabulário as palavras começadas por ele. por isso a avó, a minha avó, de milagre de lourdes passou a mariazinha.
a minha mãe herdou o mariazinha. para o irmão e para o meu pai parece nunca ter crescido. foi sempre mariazinha.
o que é estranho é eu não me lembrar de conhecer a minha mãe sem ser já crescida. vejo-a nos retratos a preto e branco. olhos enormes, um laçarote branco a agarrar duas tranças e a minha prima bébé nos braços e digo, esta é a minha mãe. mas na verdade não acredito. porque a mãe que conheço não é mariazinha. a não ser claro para o meu pai. e para o irmão. mas o irmão morreu. sobrou-lhe essa infância prolongada só para o meu pai. sorte é a minha mãe não chamar filho ao meu pai. então seria muito mais difícil eu pensar que tenho uma mãe que se chama mariazinha.
porque há mulheres que dizem filho e querem dizer amante. são assim como umas enormes aves chocadeiras que por debaixo das saias constróiem ninhos onde arrumam ovinhos para omoletes com cebola e salsa e filhos e maridos que são tão frágeis como homens. tão frágeis como os homens quando amam. depois os filhos e os homens crescem e nem sabem como hão-de olhar as mulheres por debaixo das saias. ou então são assim como o bisavô joão baptista e amam as mulheres todas como se as quisessem nomear com nomes tão improváveis como lucrécia. e montar. para se recordarem de existir à luz do sol todos os dias. excepto à segunda feira de manhã quando escolhem morrer por um bocadinho. é que viver sempre também cansa um homem.
são estranhos os homens. assim tão estranhos como as mulheres. por exemplo
quando dizem coisas assim
que tempo faz neste verbo
quando os olhos sem as palavras
guardam em silêncio
o inverno de junho?
podemos nós cair no céu
assim, manchados de tinta permanente
na camisa e nos dentes?
e que te fazem pensar em enormes escritórios na penumbra e ele escrevendo-se por entre a angústia de uma manhã de segunda feira em que se deixa morrer por um bocadinho. só para descansar a vida. em redor levanta-se esse céu encadernado em que cai quando se sente apenas uma palavra. de permanente só a cor que a irisa. e nos dentes as carnes macias de uma mulher. porque a única verdade que pode ressussitar-te é o amor de uma mulher. e esse adormece muitas vezes embalado por águas mansas, tão mansas que mais são os rios em que a memória se dá. eu sei porque vi no espelho dos teus olhos as minhas águas mansas adormecerem-te. por dentro dos teus olhos um nome chegou a aflorar. mas não o disseste. assim
as segundas feiras são sempre dias em que as manhãs te matam. é só um bocadinho. mas chega para te deixar um buraco em forma de corpo.
quando a minha bisavó belisanda amou o meu bisavô joão baptista deve ter sido verão. e as carnes dela deviam ter essa cor de trás os montes quando o sol dá nos penedios e se espalha pela esteva. sobra sempre um cheiro muito a quente e a campo livre e a mulheres de saias amplas roçando pela terra. imagino que como eu gostasse de andar descalça e sem cuecas. e que o joão baptista nunca tivesse cheirado uma mulher tão bonita. a avó belisanda era como os bichos quando esgravatam no chão para fazer o ninho. toda cheia de terra e de céu desejou para ela aquele homem de olhos azuis e cabelos de vento. parecia ter uma liberdade dentro de si que lhe dava uma qualidade de ave. ao voar dentro dela o seu sémen renomeava-a a cada vez que se amavam. e quando ele saía de dentro dela
lenta lentamente
ela dizia
sobra-me sempre este buraco em forma de corpo.
há homens que quando conhecem o mundo por dentro das mulheres
conhecem-se a si mesmo
de uma forma nunca esperada. e então a vida acontece. e a morte é mesmo morte. não é uma qualquer segunda feira.
eu sei de um homem que diz
diz-me de tudo como no ventre
o eterno retorno, a respiração
por dentro, os romances e as personagens
por quem te apaixonas, que te amam.
diz-me, ou então fala, que eu escuto
e por dentro de mim então
com todo o meu mistério de ser assim mulher eu digo.contar-te-ei a história mais linda
a única que verdadeiramente nasceu para ser contada. é que essa é a sua natureza.
o irmão da minha mãe que nem sei se a tratava por mariazinha e que morreu muito jovem
dizem que se deixou morrer por amor
eu acredito porque tinha os olhos mais água que alguma vez vi. isto claro eu penso ao ver os retratos em que
encostado a uma fonte
a sombra de um chapéu de feltro lhe emodura o rosto. os olhos porém abrem-se em segredos tão secretos que só alguém sangue do seu sangue poderá desvendar.
eu sei. o amor pode ser paixão e parecer um bicho a roer os ossos e a carne de um homem e nem sobrar uma palavra para dizer. ser um silêncio tão olhos que nem sobra corpo vida razão. esse irmão da minha mãe é o meu tio. e juro que o amei como uma mulher ama um homem e lhe quer resgatar o corpo. tinha treze anos e todas as segundas feiras de manhã
me deixava cair no céu daqueles olhos e morria um bocadinho. por isso sabes
até entendo que ontem
ao fim do dia
tu aprendesses que o teu corpo existe. as segundas feiras à tarde só existem para aprendermos a viver o resto dos dias.
histórias de um futuro que hoje vive, sofregamente,
abruptamente, ter medo de morrer num sítio estranho, onde
só existem estrelas e negro, guardar sempre o último fôlego para
depois, olhos abertos. no dia seguinte começar a escrever um novo futuro.
*antónio lobo antunes*
invocar, evocar, convocar: penso. como se a boca fosse um enorme buraco de fechadura. e eu espreitasse. espreito. as portas que de portas saiem, entram noutras dimensões. pertencem à memória.
inventada, dirás mais tarde,
com a tua incrível alegria de viver constróis mundos dentro de mundos. e a verdade? perguntarás também, ora, a verdade,
que coisa mais chata a verdade...será que queres ouvir falar da verdade? é que costumas morrer à segunda feira de manhã e acho mesmo que não é uma verdade que te ressuscita.
por exemplo: é verdade que também eu como o lobo antunes hei-de amar uma pedra e que essa verdade é uma metáfora insidiosa tão feia tão feia que prefiro dizer também eu hei-de amar uma pedra e pensar que o granito seria uma pedra amável.
a minha bisavó belisanda era uma mulher de fibra. dizem. porque nunca conheci ninguém que a tivesse realmente conhecido invento-lhe uma história dentro da minha própria história.
que é como tu dizes uma prodigiosa acrobacia de memória
e oplá, eis que em equilíbrio me aparece uma mulher de fibra transmontana, como só as graníticas mulheres transmontanas podem ser. o que dela me chegou às mãos são os lençóis de linho. dizem que fiados tecidos e bordados por ela. eu acredito e muitas vezes tiro-os da arca perfumada de alfazema que também sei ser o cheiro que ela escolhia para os perfumar e deito-me com eles na cama.
nessas noites a verdade da minha bisavó belisanda vem ao meu corpo. é sempre verão. cheira a esteva quente. e há águas tão mansas como rios e beira rios onde
eu e tu nos sentamos
e costumamos falar. por exemplo
tu dizes assim
gosto tanto de ti e acredito.
eu fico parada a tentar encontrar-me um nome que te explique o que realmente sou e pode ser amável. uma transmontana na transumância dos dias
cheiro a esteva e a mulher a quem os pés servem de asas. não há mistério maior que esse que uma mulher reserva para um homem. e isto eu aprendi enquanto te ouvi dizer
acredito
que não há mistério maior que uma mulher quando ama um homem.
depois seguras a minha mão e sobes pelos meus dedos como se quisesses sustentar o teu corpo todo no meu. sabes,
eu também por cá ando à procura de sustento para o meu. mas isto é segredo.
não contes a ninguém.
há muitos homens que dizem palavras capazes de agarrar dedos mãos olhos corpo todo. um diz escrevo para um pé nu baloiçando fora de um lençol. parece ter a vida toda assolada por essa nudez. é que até uma nudez pode ser escandalosa
dizes tu
tentando assim justificar porque não me devo desnudar a alma
deixando-a baloiçar
fora do lençol da minha bisavó belisanda. mas é
linho fiado tecido e bordado por ela. entendes,
casa. é casa. e nada de mal pode acontecer-nos quando estamos em casa
pois não?
eu escrevo para esses lençóis de linho. com iniciais bordadas que nunca poderiam ser as minhas. mas agora o bê é de blimunda. e de belisanda. nomes tão improváveis como as mulheres podem ser quando amam um homem e
é ele quem as nomeia.
o meu bisavô era joão baptista e dizem que nasceu com esse poder que fazia com que as mulheres desejassem o que o seu corpo todo de homem santificado pelo amor oferecia. a todas concedia um nome e a todas acreditava ter amado. morreu na cama de uma criada enquanto a montava gritando lucrécia, lucrécia. a bisavó belisanda entristeceu com tanto nome. e parece que durante muitos anos eliminou do seu vocabulário as palavras começadas por ele. por isso a avó, a minha avó, de milagre de lourdes passou a mariazinha.
a minha mãe herdou o mariazinha. para o irmão e para o meu pai parece nunca ter crescido. foi sempre mariazinha.
o que é estranho é eu não me lembrar de conhecer a minha mãe sem ser já crescida. vejo-a nos retratos a preto e branco. olhos enormes, um laçarote branco a agarrar duas tranças e a minha prima bébé nos braços e digo, esta é a minha mãe. mas na verdade não acredito. porque a mãe que conheço não é mariazinha. a não ser claro para o meu pai. e para o irmão. mas o irmão morreu. sobrou-lhe essa infância prolongada só para o meu pai. sorte é a minha mãe não chamar filho ao meu pai. então seria muito mais difícil eu pensar que tenho uma mãe que se chama mariazinha.
porque há mulheres que dizem filho e querem dizer amante. são assim como umas enormes aves chocadeiras que por debaixo das saias constróiem ninhos onde arrumam ovinhos para omoletes com cebola e salsa e filhos e maridos que são tão frágeis como homens. tão frágeis como os homens quando amam. depois os filhos e os homens crescem e nem sabem como hão-de olhar as mulheres por debaixo das saias. ou então são assim como o bisavô joão baptista e amam as mulheres todas como se as quisessem nomear com nomes tão improváveis como lucrécia. e montar. para se recordarem de existir à luz do sol todos os dias. excepto à segunda feira de manhã quando escolhem morrer por um bocadinho. é que viver sempre também cansa um homem.
são estranhos os homens. assim tão estranhos como as mulheres. por exemplo
quando dizem coisas assim
que tempo faz neste verbo
quando os olhos sem as palavras
guardam em silêncio
o inverno de junho?
podemos nós cair no céu
assim, manchados de tinta permanente
na camisa e nos dentes?
e que te fazem pensar em enormes escritórios na penumbra e ele escrevendo-se por entre a angústia de uma manhã de segunda feira em que se deixa morrer por um bocadinho. só para descansar a vida. em redor levanta-se esse céu encadernado em que cai quando se sente apenas uma palavra. de permanente só a cor que a irisa. e nos dentes as carnes macias de uma mulher. porque a única verdade que pode ressussitar-te é o amor de uma mulher. e esse adormece muitas vezes embalado por águas mansas, tão mansas que mais são os rios em que a memória se dá. eu sei porque vi no espelho dos teus olhos as minhas águas mansas adormecerem-te. por dentro dos teus olhos um nome chegou a aflorar. mas não o disseste. assim
as segundas feiras são sempre dias em que as manhãs te matam. é só um bocadinho. mas chega para te deixar um buraco em forma de corpo.
quando a minha bisavó belisanda amou o meu bisavô joão baptista deve ter sido verão. e as carnes dela deviam ter essa cor de trás os montes quando o sol dá nos penedios e se espalha pela esteva. sobra sempre um cheiro muito a quente e a campo livre e a mulheres de saias amplas roçando pela terra. imagino que como eu gostasse de andar descalça e sem cuecas. e que o joão baptista nunca tivesse cheirado uma mulher tão bonita. a avó belisanda era como os bichos quando esgravatam no chão para fazer o ninho. toda cheia de terra e de céu desejou para ela aquele homem de olhos azuis e cabelos de vento. parecia ter uma liberdade dentro de si que lhe dava uma qualidade de ave. ao voar dentro dela o seu sémen renomeava-a a cada vez que se amavam. e quando ele saía de dentro dela
lenta lentamente
ela dizia
sobra-me sempre este buraco em forma de corpo.
há homens que quando conhecem o mundo por dentro das mulheres
conhecem-se a si mesmo
de uma forma nunca esperada. e então a vida acontece. e a morte é mesmo morte. não é uma qualquer segunda feira.
eu sei de um homem que diz
diz-me de tudo como no ventre
o eterno retorno, a respiração
por dentro, os romances e as personagens
por quem te apaixonas, que te amam.
diz-me, ou então fala, que eu escuto
e por dentro de mim então
com todo o meu mistério de ser assim mulher eu digo.contar-te-ei a história mais linda
a única que verdadeiramente nasceu para ser contada. é que essa é a sua natureza.
o irmão da minha mãe que nem sei se a tratava por mariazinha e que morreu muito jovem
dizem que se deixou morrer por amor
eu acredito porque tinha os olhos mais água que alguma vez vi. isto claro eu penso ao ver os retratos em que
encostado a uma fonte
a sombra de um chapéu de feltro lhe emodura o rosto. os olhos porém abrem-se em segredos tão secretos que só alguém sangue do seu sangue poderá desvendar.
eu sei. o amor pode ser paixão e parecer um bicho a roer os ossos e a carne de um homem e nem sobrar uma palavra para dizer. ser um silêncio tão olhos que nem sobra corpo vida razão. esse irmão da minha mãe é o meu tio. e juro que o amei como uma mulher ama um homem e lhe quer resgatar o corpo. tinha treze anos e todas as segundas feiras de manhã
me deixava cair no céu daqueles olhos e morria um bocadinho. por isso sabes
até entendo que ontem
ao fim do dia
tu aprendesses que o teu corpo existe. as segundas feiras à tarde só existem para aprendermos a viver o resto dos dias.
histórias de um futuro que hoje vive, sofregamente,
abruptamente, ter medo de morrer num sítio estranho, onde
só existem estrelas e negro, guardar sempre o último fôlego para
depois, olhos abertos. no dia seguinte começar a escrever um novo futuro.
*antónio lobo antunes*
blimunda dixit
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