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14 abril 2006

24. Noutra Jazida

Existe uma forma mais interessante para dizer isso. Existe, mas não se usa. Existe uma canção para acompanhar essa batida, contudo, e também, não se cria. Existe uma infinidade de coisas para reinventar um monte de coisas mas que por algum motivo preferimos os vínculos com as formas antigas. E nisso somos iguais aos outros tantos que se parecem a nós mesmos. Suor, temor, passividade e obediência. Somos idênticos. De acuados como coelhos à preservação contra as limitações, somos idênticos. Em respostas que já sabemos e perguntas prudentes, definitivamente fazemos parte da mesma caterva de indigentes. Nas previsões nefastas, sem valor agregado algum, escolhemos as mesmas quando o que nos toca é extinção, esvaecimento ou avaria. Presos ao mesmo motor, ligamos as hélices de um que-se-foda enquanto afundamos em remordimentos. Dores inúteis, só pra deixarmos a coisa rasgar por dentro, devagar, como toda sentença avara que só nós sabemos reservar a nós mesmos.

Pelas consoantes dessas tintas chegamos a um quadro no mínimo esquisito, o dos poemas que só navegam e prosas morosas sucessivas de sombras sem nenhuma eficiência, senão aquela para ficarmos sangrando na merda das feridas. Se estancar fosse algum método avançado que se aprende sem se descascar a própria pele, talvez valesse a pena lê-los, flanar em movimentos que não são nossos, mas cuja rotação por alguma razão desconfiamos pertencer. Mantemos com ela uma junção fecunda que se constrói enquanto é o outro que vai caindo, uma vez que para existir na gente esse outro precisa sentir muito parecido. O mal que ele devassa tem o mesmo cheiro, a mesma textura daquilo que nos consome vivos, lúcidos e mortais. Absolutamente mortais, sem honras nem créditos que uma brochura qualquer possa ter. Por isso escrever só vale para quem acha que ordena a vida em capítulos a fim de observar os círculos do seu tempo, entrando e saindo dos seus infernos, mostrando por onde se entra e como se sai. O resto é comentário disperso, permanente e pobre, despojado da realidade de como nos extinguimos na nobreza de um verso. Ou de uma frase, bem humana, quando nos mandam para o inferno.

Esse é o limite que se impõe a quem sente e escreve. Elisa nos meus braços é quente, Elisa no teclado é uma sensação que se descreve, mas poucos sentirão o calor da Elisa como eu quando a tive por perto. E se hoje ela anda sumida, a quem importa esse fato senão àqueles que um dia tiveram uma Elisa quente nos seus braços? Que para lembrarem-se dela irão me ler só para não deixarem envelhecer os braços, a quentura, que não é da minha Elisa, mas a deles, para quem eu não criei um roteiro que mostrasse como eu estou caindo sem a minha Elisa quente e longe dos meus braços. Não há orgulho mais exilável do que ter sentido algo, escrito sobre esse algo, mas que serve apenas para deixar entrecerrado o desamparo. Melhor foi ter sentido, sem que ninguém soubesse, pois quem me remete para esse fogo sou eu, sem necessitar de escrita, páginas de justificativas de como se perde quentura, braços, Elisa e perto.

Por isso que das perdas e suas baldeações trato-as como lendas. Dizem que foi, afirmam ter visto, era uma vez uma fome e a saciaram para sempre, pois não me satisfaço com restituições de esperança, sobrevidas de farturas, fugas, transportes e pretextos. De séculos venho amando o real, obstinado com o sustento real, na mais rasa motivação real, sem prolegômenos frugais como antepasto ao massacre de realidades que engulo depois. Quando eu afundo, afundo porque quero e fico lá não por conta de um poema que eu leio como peixe num aquário ou prosa erudita num acadêmico enferrujado. Fico no fundo porque a realidade queimou, bateu aonde não deveria, e por instinto ou passageira confusão, fico lá, por algum tempo. E ninguém vem me resgatar porque ninguém me levou pra lá, nem Elisa, nem braços, mas uma quentura desbocada gritando Você se fodeu, Você se fodeu. Por isso é que eu digo: alguns nascem para narrar o passeio, outros para morrer no passeio. E outros, os reais, para desfrutar do passeio. No gozo. Sem os círculos e os capítulos, subindo e descendo nesse andaime que só nós conhecemos, sua arquitetura, seus extremos, do chão ao mais dourado dos mundos. Real e deliciosamente por dentro.


Ilidio Soares dixit

19 janeiro 2006

3. A Lembrança De Dagmar


Por quê você viveu assim todos esses anos ? Quem lhe disse que em algum dia fomos um único indivíduo ? Pensasse de outra forma e não haveria sofrido tanto, meu querido. A vida é respiração brusca, instinto aborígena que salta da boca estática e vai, petulante, saturar-se na loucura de outros suspiros não menos excepcionais. Começam sempre humildes e condescendentes, depois se transformam, instante seguinte, em fome de facas e ciladas.

Enquanto eu tirava de você a vertigem e a fé, fui deixando afagos verdadeiros mas um pouco retardatários, e que hoje, certamente, se encontram diluídos numa crença esquisita que só a você pertence.

No nosso idioma quem amou deixou a vida fazer-se num traçado de fidelidades. Eu nunca amei você, e você sabe disso, mas também não lhe tive ódio, apenas assombros. Os dias, os anos passados a seu lado me tornaram pequena. Na verdade me transformaram em algo inimaginável para alguém como eu que teve sempre a alma voltada para os riscos. Cada vez que lhe pertencia, mais me afastava dessas coisas. Um açoite. Você não as entendia, nem eu seus desamparos. Talvez devemos isso a debilidade natural dos receios e ansiedades que sempre nos caracterizou. Na súbita busca de permanecer no tempo e fugir dos limites da terra, fomos assegurando nossos segredos. Vê ? Quem disse que em algum momento não fomos uma única pessoa ?

Que você continuasse amando foi sempre o meu desejo. Até para poder comparar as melancolias, nossas cúmplices. Mas para você não arder no mesmo espaço, peço-lhe que procure não entender minhas labaredas. Isto fará que você sofra menos e ponha os olhos nesse coração sacudido entre respirações e soluços. Alguém morreu, pode ser. Mas há muita gente fazendo perguntas semelhantes as suas, mastigando freios e carregando palavras compensatórias. Não percebe, meu amigo, que esse nunca foi meu grito ? Vá lá, da minha blasfêmia, quem sabe você não encontra os vestígios da sua estrada.

Como fui eu quem se desvencilhou, cansada da sua língua e do seu ruído de existir, quem procurou ao longo desse tempo se consertar e se nutrir. Fui sim, e sem remorso algum, executar as crenças que aprendi do mundo. Eu vivo, eu resisto, enquanto os outros preferem aguardar o que vem pela frente. E isso, de alguma maneira, me torna diferente. Resistir é estar adiante, e não me deixa cativa desse invólucro que não permite que separemos ordenação de sonhos. Essa é hoje a minha casa. À força de nunca mais ter que sentir náusea, sou meu próprio esquecimento, meu antepassado. Se estou menos garra é porque fiz nascer em mim outras geografias mais angulosas e menos transparentes. Se a antiga paixão apodreceu em mim é porque dentro da minha garganta outros nomes, outras tardes, outras espessuras quiseram saltar. E eu deixei.

Como desaprendi a ser aquela humana que você um dia conheceu, não sei se devo continuar lhe dizer palavras. Tudo fica muito precário. Abstrato. Depois que fui embora resolvi parar de depor a vida. Porque me tornei farta, não preciso mais surgir à cena com os meus encantamentos. Eu sou a própria volúpia. A extremidade do cio e a saudade de um corpo ao qual você se condena. Eu circulo, próxima as portas entreabertas de homens adverbiais e também esperançosos. Perscruto essa espécie rara que ultimamente vem se desdobrando à minha frente. Ali meus gritos tem cor de sangue e as promessas não são perversas, não sugam nem colam-se futilidades às alturas. Ali eu sou santa e loba e uivo com os olhos pregados no céu das queimadas.

Meu amor, neste outubro dissolvente venho me lembrando de você alguns dias. Mas procure não reacender seu interesse por mim. Este registro é saudoso, acredite, mas descose qualquer uma de suas falas. Se para você é dolorido me ler, saiba que a pena aqui também não se retrai. Mas não é coisa de morte nem partilha seu caminhar. Ainda crendo haver uma desordem nisto tudo, lembre-se que da carne de uma mulher nascem homens, e eu quase lhe pari. Estendi-me ao seu lado como alimento e medida, lhe quis matéria e você, vida. Eis aqui nossa condena. Jamais conseguiríamos saciar essas sedes. Mas você insistiu, e eu lhe penso. Por isso me lembro. E escrevo para lhe dizer que enquanto estive contigo fui um resíduo de transgressão, apenas uma página de lascívia. Água parada, nua, entre os móveis da sala, mas nunca pelas paredes.

Sem nenhuma conexão com seu extremo meus dias ficaram indisciplinados, precisando forjar uma consciência de espera não mais insuportável ou sobrevivente. Movo-me sem meu filho que não saberá que atrevessei o riso e dei em terras mais espessas, e tudo isso sem ele. Meu filho... Acima da demência, rente ao pescoço, triturando-me de explicações cada dia eu intensifico esse susurro. E tem cor, sombra e vestígios de mim. Que um dia ele me poupe desse desperdício.

Deixe-me portanto às devorações das brevidades. A mulher que lhe parecia adequada veio lhe dizer adeus. Das horas atravessando nossa cama também me despeço. Em algum momento eu tive o rosto repleto de rios e pássaros do paraíso. Hoje eu temo que o amor seja feito de alagadiços e instantes jubilosos. Será que o passar de línguas sobre meu ventre murmuram outras voracidades indizíveis ?

Para você, a alma. Para mim, a chaga. Não me culpe, mas sim seus desempenhos. As paredes e o esquecimento enclausurado num corpo que há muito se havia ido. O tempo girando, sustentando o que nos redimia, as águas e o vento que não surgia. Uma eternidade de falsas rimas, e eu, ainda, me perguntando o por que.

Fui infiel. Me rebaixe até onde não possa mais. Me desterre. Na fartura ou na colheita, ou mesmo em torno desse seu novo consumo, me rebaixe. Depois de ter amado a mistura de um outro homem eu ultrapassei essas funduras. Para mim nada mais é abismo nem se acaba com rotas palavras. Eu encontrei o humano, meu querido. Encontrei os atributos dessa catarse que às vezes cega, às vezes se desgasta. Mas é transbordante e avança sempre. O humano vem substituir as cores, tragar, vencer e até fazer distâncias. E se você precisa de chuvas, eu preciso de relâmpagos.

Hoje eu consigo tangê-lo, atribuir-lhe legiões de gostos que certamente não teriam nascido em nossa casa. Posso arbitrar, suceder e penetrar na exaustão das unhas que correm pelos meus cabelos porque a dor não conta mais. Só os espasmos e o desalinho desses ingredientes que exijo do homem que repousa junto a mim. Não são ânsias, mas privilégios. Insaciáveis. Suores nas nucas sinalizando uma bastança que a nada mais se submete.

Suspeito ter morrido pra você antes mesmo que nos conhecessemos. Suspeito ter sido ultrapassada pelos descompassos. Tenho tido noites extremas, mas continuo me tocando. Crescendo no risco e transitando entre vidas que correm à minha frente. Depois que fui embora, depois que amei quem quase me matou de rancor e desencanto, resolvi não cantar mais cotidianos. De certa forma aprendi a me carregar e sobrepor à ausência dos que tentam me encerrar com gestos secos e sobreviventes. Quem me desenha agora sou eu, e os meus tornozelos estão descobertos porque eu quero que fiquem descobertos, e não mais por exaustão de amor.

Alguém sonha comigo, mas antes que eu o encontre me pergunto: não seria mais adequado luzir dentro do meu peito e extrair dele uma série de outros inventos? Já experimentei somas, e foi pouco. Tive encontros subterrâneos que ruiram com o tempo, nenhuma âncora nem homens que se reiventam. Os corpos que possuí estavam em mim, ou quando muito à ponta do meu zelo. Com esta genealogia prefiro mesmo desaparecer e manter-me essência, carne, pêlos e intestino. Porque sempre que sumo, me refaço.

Prometi não me entregar mais aos náufragios. Na verdade às luas masculinas, que arrastam para a sombra seus carregamentos sinistros. Por isso meus dias agora ardem de estremecimento. Cruzo ruas e empurro para longe os sorrisos amarelos, os atos especiais e as demandas que escapam pelos dentes. Passo diante dos homens assim como quem atravessa as manifestações de palavras encadeadas. Fico olhando, fico ouvindo enquanto minha outra metade fita o mundo, a terra e as tardes inundadas de bocas e umidecimentos. Gosto do som de homens que se molham com essas coisas.

Assim está minha vida. Não era isso que procurava saber ? Se quiser me perguntar também como estou lhe digo: vou sucedendo. Talvez não consiga lhe explicar a natureza dessa jornada. E como nunca lhe jurei nada, juro agora pra você que sem nenhum ressentimento. Fui mergulhando cada vez mais fundo neste encanto necessário, ora me perguntando se era gemido que precisava, ora se pausa para dispersar as coisas que me atormentavam. Fiquei sozinha, sem que ninguém soubesse. E foi este segredo que alimentou meu silêncio. Tenho bons amigos, com alguns até me deito. Tenho gozado, mas não me prostituí como supõe meu pai. Pulso, sem precisar fazer nada urgentemente. E me concentro quando tudo parece perdido.

Agora paro de lhe escrever. Uma vez ou outra, sempre mais raramente vou continuar a fazê-lo. Não que eu queira deixar tudo sempre em suspenso, mas é que eu preciso às vezes me lembrar como se fazem parcos, irreais, os traçados que impomos à vida. Tocar a boca ? Só se for úmida e cheia de sobrevida. Devo estar com saudade de mim, e isso não se conjuga apenas à carne, mas também à caminhadas.




Ilidio Soares dixit

2. Dagmar Não Soube Esperar


Amor chagado, desse que tritura a vontade de uma vida inteira. Peito em dissolvência, que adentra o cerne das gotas de suor na nuca, real e instantâneamente. Poderoso. Capaz de deixar a boca afogando-se na carne abundante dias inteiros. Quando se vai, leva a eternidade e deixa uma corrosão.

Esta era a matéria sedutora que ela queria trancar numa vasta e pertencida agonia, mas a matéria devolvia-lhe sempre o mesmo rosto porque vinha de uma luz que não lhe pertencia. Era coisa primitiva. Dessas que andam na rua, nos mercados, fugidía e não se avizinha seu nascimento.

Dos poucos amores que seu quarto habitou nenhum produziu fonemas, uivos e unhadas nas costas semelhante àquele que se meteu no negrume de sua alma sem fundo. Deitou-se com ele várias vezes. Mas se chegarem gentes com suas línguas escancaradas, dirá que sobre suas fartas ancas apenas seu marido repartiu o instante convulsivo. Um homem que para ela havia se transformado nos últimos anos em apenas um passo no grande passeio que pretendia para a vida.
Olhando o futuro - e a nitidez da mirada de Dagmar não se perde na penumbra nem no nome dessa passagem - ela dobra-se num pulo e expõe as nádegas para ser pertencida de maneira espessa e sem palavras. Do amante ela só aguarda estocadas profundas e bocas tortuosas, pele e ruínas. Só através desse ponteiro de ébano esguio é que ela consegue emergir da condição terrosa de mulher esculpida com um rosto vazio. Só assim ela volta ser a menina que viveu em agrandados vestíbulos, mucamas, prenha de sonhos e relâmpagos nos olhos iluminados.

Dagmar nunca se aquietou. Na agonia de ser uma fazedora de caminhos e genealogias - desde de pequena gostava de se perder nos intentos porque essa era a única forma para atravessar os dias que só lhe armavam ciladas - faria um barco que moldasse o encantamento dos seus mitos e sustentasse o fogo para uma vida de partidas. Seria extrema, e condenaria a saudade a um resto insosso de decifrações de ruas, vilas, odores de frutas e lençóis quarados. No início da adolescência colou-se à compaixão, mas não àquelas feitas nas igrejas do seu Rio de Janeiro de 1909. Foi ativa, cheia de atalhos, porque queria chegar rápido às soluções e tomar de assalto a infelicidade dos que sofriam. Dagmar entrelaçava-se com os amigos, nas suas caídas e nas raízes das suas angústias. Raro para uma moça da sua época.

Mas o mundo não estava mais na infância. E Dagmar percebeu isso quando seus pais lhe apresentaram um jovem médico vindo do interior de São Paulo. Culto, equilibrado, bem aventurado, desses cuja a esperança parece desprender-se do pouco que ainda se é, e vai para além da vontade do que se delimitou querer. Desde o primeiro instante ele ficou refém do fogo e da lua de Dagmar. Mas como a paixão era a sós, à espera de uma fome que ela não entrevia o contorno, a união se resumiu à vontade dele e no deixar-se amar dela.

Envolta na poeira daquele começo, repensando as coisas que atravessam as idades e não nos deixam mais voltar ao barro inicial, Dagmar murmurou que aceitava o casamento. Se na infância o mito resvalara o mundo, agora o vento da fala real de um homem avançava sobre seu quadril, lambia-lhe os inumeráveis segredos, mas um grito de voracidade vindo da alma aquele homem jamais ouviu sair de sua boca. De entender o porque daquela decisão não lhe havia sido dada a hora. Mas foi esta a condição que Dagmar escolheu aos dezessete anos para não se tranformar em mulher.

Deixando para o futuro a resposta de seu ato, ela não percebeu que o medo a impediu de ver que desde o começo já existia algo de remendado naquilo tudo. De perversa e incontrolável semelhança. Porque entre os atributos diletos de sua família, acatar o possível era mais digno do que tentar ir-se mais longe na diversidade. Portanto as viagens, o viço, os pomares e o transitar por outras vidas estavam condenados a ficar guardados nas rugas da sua testa.

O desencantamento começou a surgir nos primeiros meses de casamento. As doenças em seguida. Aos dezenove anos dores agudas na coluna transformaram sua rotina em idas e vindas do farmacêutico para aplicações de morfina. Único alívio, moldado ao seu tempo e circunstâncias. Como ela mesma chamou esse período, esta foi a época das paixões. Enterrando-se na mais alta constelação do vício e resistindo a correnteza de um espaço agastado, Dagmar foi criando uma lesão na coxa que não desaparecia da pele porque não era mais a pele que comandava-lhe a vontade. De alguma maneira ela pedia que a dor se refizesse para depois ir ajustando-a às ilusórias sobrevidas que a droga provia.

No sofrimento ou na vigília, mas com os olhos pregados no mulato que lhe alisava a perna e enfiava dentro do seu corpóreo o solvente da dor, Dagmar percebeu que ele poderia ser o homem que viera das terras que nunca visitara, trazendo-lhe uma medida que até então não experimentara. E foi.

Seu nome não importava. Ele simplesmente cintilava, tinha cheiro de capim e reacendia sua existência com a execução das picadas que penetravam no oco permanente que os anos de casamento construíram. No início, como quem só quer ver e escutar o coração da semente, Dagmar guardou para si o axioma do frêmito e seus princípios.

Não dizia nada, sequer esboçava nos olhos o espanto de haver identificado a distância que a separava do seu jovem esposo. Uma extensa fome de afagos, tão estilhaçada, tão rastejante que somente a droga foi capaz de desvia-la do caminho de desperdício. Como esposa, trancou a cancela da estrada, mas, no consumo feroz de querer se transformar definitivamente em mulher, abriu-se adequadamente numa tarde inquietante de insetos e odores.

Sem vestígios nem soluços agarrou a mão do seu curador, e com um olhar baço que nada condena nem justifica, puxou-o para si na esperança de tingir com beijos a tarde flutuante. Se fosse noite, o úmido cio adormecido se rebelaria com vozes que o coração não consegue separar. Finalmente o invólucro se rompera. Porém, por descrer da consciente espera, lançou-se vagarosamente no sopro de um homem que a terra não desgastou. E esse homem foi cavando o casulo do seu silêncio com pouca garra e muito encantamento. Palavras não proferiu. Os sons da sua boca vinham de um sumo apropriado aos adornos. Recheado de risos e uns, estendeu-se na nudez devastada pela resistente espera, perseguiu a retração das suas buscas e farejou o charco e os dejetos de sua antiga vida inteira.

Dagmar amou esse homem por quarenta tardes. Se ele apenas tivesse tocado seu coração, se tivesse apenas posto a língua nas suas águas vacilantes como um bêbado desnorteado à beira de um mar de espumas, Dagmar não superaria o cansaço de haver se tornado mulher. Mas ele foi além. Foi não querendo ser raíz das suas escuridões e dando gargalhadas deliciosas que esse homem, sem nome e sem razão, transformou a astrologia do seu destino em altura sensível para os dias imóveis.
Não pretendendo ser salva, nem recusando adivinhar-se na pura distração, Dagmar despejou sobre ele as coisas que não se submetem as coisas dos homens e ficou junto dele durante os dias daquela razão.

Mas como a paixão se move e está presa à metáforas, seus viventes se descompassam tentando penetrar nas camadas que encontram naqueles vêns, e cujo conhecimento se tece com risco e prenúncios. No traçado múltiplo que não cabe na margem das coisas que não são contadas. E, por isso, de novo as metáforas. Tem sido este o desígnio dos que se descosem no mergulho que iniciam dentro de outro alguém e tomam para si os desvãos da sua dependência. Para muitos essa coisa que ultrapassa o impulso de existir preserva entre as coxas um lixo ou a parecência do eterno. Para Dagmar era um gemido surdo.

Considerar a esperança ¾ que ampara a inteligência e suaviza a ansiedade ¾ como único recurso para evitar a destruição que a ausência de um beijo definitivo e que se enterrou no coração provoca, é acreditar cada vez menos na carne humana. É desaprender o sentido dos pelos, das perplexidades que nos causam cada vez que vamos até os poros, nitidamente nas intersecções, nas falhas, cuja umidade supera a literatura de qualquer coisa gordurosa ou alegre de vida. A esperança, dentro de uma garganta apaixonada, não prende nada. É uma barca ardendo sobre lágrimas fúteis e que tudo afasta.

Foi pensando assim que Dagmar escreveria mais tarde: todos os momentos passados com este homem, na ilusão inevitável de que tudo viria dele, e onde meu prazer era não ter mais que dormir, mesmo nos dias sossegados das minhas névoas, não ter que conceder nada além do que um gesto exato, no território livre que escolhi para ficar ao seu lado, perder as medidas de quem sou e também aos olhos de quem me vê, ser a fuga ou o movimento sem rumo de uma lua sem terra, de certa maneira ser sua amante mas temendo ser sua filha, pela magia ou pelo remorso. Aproximei-me bem rente desta queimada e apreendi com a carne jubilosa a transgressão. Defitivamente esse homem me descobriu.

Empoçada de tempo, Dagmar atravessou aqueles dias sem nenhum apresto nem ordenação. Chegou à inquirições, até a náusea, aos vínculos expostos, que na execução de um casamento esfriado são respondidas com um sim ou um não. Numa linguagem que despreza a própria culpa, dessas que se constroem na passividade doméstica, ela foi juntando num espaço também doméstico as tardes flavescentes, os dedos molhados, as geometrias, frestas e ardências. Nada mais era preciso contra a esperança. Ela estava viva e além da concepção que separa o corpo da alma. Numa largueza de razões, amena, e sem nada para lhe truncar o insaciável vício de viver, Dagmar amadureceu.

Em seguida foi comer sua descendência, largando fora as profecias preconceituosas que abalavam sua épcoa. Aprendeu a falar com o mundo, deixando-lhe palavras e levando suas vertigens. Imersa em tanta alegria, tirou do seu interior idéias de outros temas, poesia, a contenção dos dois anos e foi-se embora.

Quando seu homem partiu, após as quarenta tardes, Dagmar restaurou a coragem que não descolava da sua danação. Sem se retrair nem se esguiar das sombras que se enfrenta no abandono, ela emergiu dos seus guardados e jamais regressou àquela casa. O desespero, ela deixou para o residente de semblante satisfeito e acomodado. Dela não se ouviu mais falar. Seus pais engendraram uma história de loucura e suicídio, enterrando-a no sótão da memória familiar sem explicação e sem jamais terem-lhe suspendido a pena.

Nessa relação de bens em partilha a prioridade é para tudo que possua vida. E foram essas coisas que Dagmar deixou para trás. Amor, ódio e separação. Nessa hora as coisas de um homem são mantidas em desempenhos, na largueza de uma corrosão que requer outro tipo de sofrimento. Necessita uma linguagem pessoal, raramente evidente na esfera dos abandonados. É o tempo das precariedades, onde matamos ou morremos sem nenhum argumento; se preservamos ou não os filhos, se a lentidão do drama que vai moendo a noite inteira é provisória ou se multiplica. Essas intimidades se intercomunicam há milênios, e não poderia ser diferente no caso do abandonado. Ele sofreu pelos olhos, na inocência ou incapacidade de não ter permeado aquele sonho, pois o movimento do seu amor não foi resistente aos círculos de Dagmar. Seu descuido levou-a embora, perdeu luz, o ritmo e as decifrações que tanto perseguiu.

Chegou a acreditar numa emboscada de baixos sentimentos, mas largou essa crença por outras voracidades. Quis voar, quis tocar a demência, temeu seus limites e voltou como ave retardatária ao poente daquilo tudo. Dividiu o amor em partes, morreu de saudades, sacudiu a loucura e deitou-se no tempo que tritura os dias de antigos encantamentos.

Quinze anos após a partida de Dagmar, aos trinta e sete anos, ele escreveu a um amigo de São Paulo: à Deus não ouso nada. Desgastei-me no trabalho que sangra ou cava a terra. E meu único infortúnio foi não ter alcançado Dagmar. Despejado da sua aventura, obriguei-me aos meus lugares. Para manter as coisas de homem e o filho que ela me deixou considerei-me vencido porque não lhe compreendi o rosto inteiro, nem sequer o cheiro do seu vulto. Ela foi além do meu amor abstraído. Depois do espanto de ser deixado à margem de uma fartura que era só minha, casei-me novamente numa rotação contrária ao conforto inicial. Devastei-me entre paredes, pousei as esperanças na fome extrema de outra mulher que, orgulhosa por revolver-lhe o umbigo, cuida de mim até hoje. Tivemos dois filhos e toda a condição para entrarmos na morte com plenitude e vislumbre. O corpo que ela me regalou ensinou-me a entender Dagmar, a contá-la e dividir meu exílio. É uma pena que só agora tenha conseguido me libertar da alma. Pena que Dagmar não me aguardou.




Ilidio Soares dixit