26 abril 2006

25. As flores da rua


Olho para cima, para a nuvem branca com forma de urso polar que cruza o céu azul sobre mim, enquanto os pardais saltitam pela calçada a chilrear. Os meus passos demoram-se na mais tripeira das ruas, o olhar perdido no reencontro das construções seiscentistas e nas varandas onde noutras eras suspirou o amor na Rua das Flores. Mais adiante, três mulheres idosas estão à porta de uma casa e conversam entre risos, sob o aroma das flores que se eleva no ar e volta a escorregar silenciosamente dos telhados para a rua.

Um homem vem a descer a rua na minha direcção e detém-se regularmente, tomando notas num bloco imundo e semi-desfeito, olhando à esquerda e à direita, como se estivesse indeciso. As cãs desgrenhadas ofuscam ao sol como uma clara de ovo, os óculos têm a armação remendada e a roupa que veste está puída e sem memória de côr. Olha para mim um instante, quase me cumprimenta mas depois coça a cabeça e volta a escrevinhar algo antes de recomeçar a andar. Aquele olhar ausente dispensa qualquer conversa, a razão vive quase sempre mais nos nossos olhos do que nas nossas palavras. Observo-o a distanciar-se, uma silhueta alienada que segue no lado do sol do passeio, pontualmente investindo até ao meio da rua para anotar algo, e com isto espavorindo sempre os pequenos e assustadiços pardais.

As três mulheres que estavam à conversa aproximam-se de mim lentamente, observam o pobre homem e meneiam a cabeça, uma delas tenta exprimir o que sente com a sua mão pousada sobre a boca. Contam-me à vez a história do homem que perdeu a razão quando a noiva o recusou nos dias de juventude, negando para todo o sempre o enlace sonhado. De longe a longe o homem volta a percorrer a rua, dizem, de bloco em punho, a tentar encontrar em alguma poeirenta arrecadação da sua memória o número da casa onde a sua noiva vivera. Anota todos os números dos prédios e das moradias, registando qualquer dado que possa reconhecer. Dezenas, centenas de números, escritos numa caligrafia senil, certamente sobrepostos e repetidos até à exaustão, uma busca inútil da inexistente chave que abrisse as portas do Tempo e da faculdade dos princípios. Os anos de ausência, o regresso da guerra colonial, a recusa, o horror da solitária vivência em hospitais psiquiátricos, a loucura e a pobreza. A vida torna-se morte em vida, o que se é resume-se a um rabisco sem sentido num papel amarelado e sebento.

Observo uma poça de água no passeio a reflectir todo o fulgor do sol enquanto ouço as últimas palavras das mulheres. Depois despeço-me e quando vejo os sorrisos engelhados daquele trio de pequenas anciãs, sorrio em resposta pois as pessoas do Porto são afinal o melhor que esta cidade tem. Quando começo a andar lembro-me de alguém me ter contado que era na Rua das Flores que outrora havia lojas de panos que vendiam às raparigas casadoiras os enxovais que constituíam o seu dote e sorrio outra vez, mas desta vez sem nenhuma alegria. As sardinheiras debruçam-se nas varandas como se ouvissem as histórias da rua e há pétalas vermelhas no chão. Talvez por cada pétala caída nasça uma nova esperança algures, talvez haja sonhos que também assomam às varandas das casas antigas da Rua das Flores, imaginando onde vão ressuscitar na próxima alba.


katraponga dixit

14 abril 2006

24. Noutra Jazida

Existe uma forma mais interessante para dizer isso. Existe, mas não se usa. Existe uma canção para acompanhar essa batida, contudo, e também, não se cria. Existe uma infinidade de coisas para reinventar um monte de coisas mas que por algum motivo preferimos os vínculos com as formas antigas. E nisso somos iguais aos outros tantos que se parecem a nós mesmos. Suor, temor, passividade e obediência. Somos idênticos. De acuados como coelhos à preservação contra as limitações, somos idênticos. Em respostas que já sabemos e perguntas prudentes, definitivamente fazemos parte da mesma caterva de indigentes. Nas previsões nefastas, sem valor agregado algum, escolhemos as mesmas quando o que nos toca é extinção, esvaecimento ou avaria. Presos ao mesmo motor, ligamos as hélices de um que-se-foda enquanto afundamos em remordimentos. Dores inúteis, só pra deixarmos a coisa rasgar por dentro, devagar, como toda sentença avara que só nós sabemos reservar a nós mesmos.

Pelas consoantes dessas tintas chegamos a um quadro no mínimo esquisito, o dos poemas que só navegam e prosas morosas sucessivas de sombras sem nenhuma eficiência, senão aquela para ficarmos sangrando na merda das feridas. Se estancar fosse algum método avançado que se aprende sem se descascar a própria pele, talvez valesse a pena lê-los, flanar em movimentos que não são nossos, mas cuja rotação por alguma razão desconfiamos pertencer. Mantemos com ela uma junção fecunda que se constrói enquanto é o outro que vai caindo, uma vez que para existir na gente esse outro precisa sentir muito parecido. O mal que ele devassa tem o mesmo cheiro, a mesma textura daquilo que nos consome vivos, lúcidos e mortais. Absolutamente mortais, sem honras nem créditos que uma brochura qualquer possa ter. Por isso escrever só vale para quem acha que ordena a vida em capítulos a fim de observar os círculos do seu tempo, entrando e saindo dos seus infernos, mostrando por onde se entra e como se sai. O resto é comentário disperso, permanente e pobre, despojado da realidade de como nos extinguimos na nobreza de um verso. Ou de uma frase, bem humana, quando nos mandam para o inferno.

Esse é o limite que se impõe a quem sente e escreve. Elisa nos meus braços é quente, Elisa no teclado é uma sensação que se descreve, mas poucos sentirão o calor da Elisa como eu quando a tive por perto. E se hoje ela anda sumida, a quem importa esse fato senão àqueles que um dia tiveram uma Elisa quente nos seus braços? Que para lembrarem-se dela irão me ler só para não deixarem envelhecer os braços, a quentura, que não é da minha Elisa, mas a deles, para quem eu não criei um roteiro que mostrasse como eu estou caindo sem a minha Elisa quente e longe dos meus braços. Não há orgulho mais exilável do que ter sentido algo, escrito sobre esse algo, mas que serve apenas para deixar entrecerrado o desamparo. Melhor foi ter sentido, sem que ninguém soubesse, pois quem me remete para esse fogo sou eu, sem necessitar de escrita, páginas de justificativas de como se perde quentura, braços, Elisa e perto.

Por isso que das perdas e suas baldeações trato-as como lendas. Dizem que foi, afirmam ter visto, era uma vez uma fome e a saciaram para sempre, pois não me satisfaço com restituições de esperança, sobrevidas de farturas, fugas, transportes e pretextos. De séculos venho amando o real, obstinado com o sustento real, na mais rasa motivação real, sem prolegômenos frugais como antepasto ao massacre de realidades que engulo depois. Quando eu afundo, afundo porque quero e fico lá não por conta de um poema que eu leio como peixe num aquário ou prosa erudita num acadêmico enferrujado. Fico no fundo porque a realidade queimou, bateu aonde não deveria, e por instinto ou passageira confusão, fico lá, por algum tempo. E ninguém vem me resgatar porque ninguém me levou pra lá, nem Elisa, nem braços, mas uma quentura desbocada gritando Você se fodeu, Você se fodeu. Por isso é que eu digo: alguns nascem para narrar o passeio, outros para morrer no passeio. E outros, os reais, para desfrutar do passeio. No gozo. Sem os círculos e os capítulos, subindo e descendo nesse andaime que só nós conhecemos, sua arquitetura, seus extremos, do chão ao mais dourado dos mundos. Real e deliciosamente por dentro.


Ilidio Soares dixit

29 março 2006

23. A Razão da Testemunha


Não vos causa estranheza a designação «testemunha presencial»? O que é que isto é suposto definir: um tipo que estava fisicamente presente num local onde se deu uma ocorrência, não? Ora isto significa que quem não estava fisicamente naquele local quando se deu a concorrência é uma «testemunha não presencial». Cheguei à conclusão que sou uma testemunha não presencial de milhares de atrocidades e isso deixa-me preocupado. É que esta condição de testemunha não-presencial coloca-me na eminência de qualquer dia ser intimado a comparecer num qualquer tribunal algures no mundo, para testemunhar não presencialmente um crime qualquer, o que convenhamos não dá muito jeito, principalmente se tiver que fazer várias escalas.
A outra designação dúbia é «testemunha ocular». Isto supostamente define alguém que é uma testemunha presencial e que ainda por cima viu tudo o que se passou em determinada ocorrência. Ser «testemunha presencial» não é o mesmo que ser «testemunha ocular»? Ou também há «testemunhas auriculares»? Curiosamente nunca ouvi ninguém falar nas testemunhas auriculares, aqueles tipos que estão no lugar da ocorrência mas que por qualquer motivo não olham para ela. Não olham, pronto. Não gostam de olhar para aquelas porcarias. Mas ouvem. Ouvem tudo. Não serão estes gajos testemunhas auriculares?
Isto leva-me a pensar que podem existir «testemunhas não presenciais auriculares»: tipos que estão longe da ocorrência mas que conseguem ouvi-la. Esses tipos são considerados legítimos? Mesmo que o pai seja incógnito? Não faço ideia.
Mas onde a coisa se baralha mesmo é com aqueles gajos que estão longe da ocorrência e no entanto estão a olhar para ela com um par de binóculos. São as «testemunhas binoculares». Estes nem são presenciais nem auriculares (porque estão longe demais para ouvir o que quer que seja). Poderão estes gajos ser levados a sério num tribunal? Espero bem que não. É que eu todas as noites sou testemunha binocular das excêntricas actividades nocturnas de uma vizinha jeitosa, e não me dá jeito nenhum ir parar a um tribunal.


Humor Negro dixit

27 março 2006

22. n.



não mudou nada. nem as folhas que jaziam. sobre a jarra. dentro da árvore. nem a água. dentro da terra. se escapou para o mar. nem o azul dourado amanheceu e fez o dia. nem a escuridão fez a noite como antes. quando ainda dormíamos. repito. quando ainda dormíamos. repetindo. contando as vezes que roubávamos ar. ao ar. repetindo. ar. ao ar.

se te contar. que já escrevi sobre este mundo. e não encontrei. uma única pedra para atirar. os braços mentiam ao corpo o movimento. e só me saía fuligem pelos olhos. ao alvo morto ao longe. e não soube o nome de ninguém. e não cheirei nenhuma flor. e não provei o sal. nem sei ao que sabe. e não beijei nenhuma mão. árida e seca. e não sei o que é ser. árido e seco. e penso e julgo. que ser árido e seco. é ter uma vida. virada para dentro. e ali. no dentro. tudo se consome. o ar. a terra. o amor. e a saudade.

se te contar. que não mudou nada. que os cães ainda andam soltos. a morder as pernas de quem quer andar. que a poeira se agarra ao rosto. e com o suor. se transforma noutro rosto. e nos engole. que as mãos que transformam a terra. em tudo. estão cansadas. e sós. e à tua espera.

e não mudou. nada. se o nada não é tudo e se o tudo. é nunca.

nunca é nada.

n. de nada.



joão dixit

21. DENTIÇÃO INCOMPLETA


*o amor é tudo – excepto o que deveria ser * luísa monteiro


comíamos nêsperas maduras sentados no muro
ensolarados de tanto abismo lá em baixo
de tanto sol lá em cima de tanta doçura de frutos e de tantos dentes de morder frutos e línguas de chupar sumo de frutos maduros e tu
: à noite sonho com peixes e abismos de mar e ventres de mulher e brancuras de beijos de mulher e filhos peixe de ventres líquidos de mulher
mas
sabes, a noite tem pernas curtas como a mentira
a morte
vem sempre primeiro como uma manta de papa e dedos ásperos
o tempo nunca chega e é sempre como o sumo
a escorrer
às vezes doce
às vezes só maduro
e sobra sempre tudo que é a morte.
a minha canta-me
dorme meu menino de oiro e até parece dois olhos grandes e umas mamas de leite branco
quente quente, mas não é, não é,
e, sabes,
nunca fiz um filho
nunca nunca
fiz um filho

e eu
: quando eu morrer quero ser cremada e soprada em cinza de ramo de nespereira maltratada. sabes
as nespereiras mais maltratadas
dão as nêsperas mais doces
e tu
:cuspo sempre caroços grandes grandes demais para a minha boca
e o céu da boca fica maltratado de tanta semente
assim
gorda
como palavras doces e inchadas à procura de nome

dizes
: nunca nunca fiz um filho
ainda assim
sonho com mamas grandes de um leite branco
e abismos que são ventres líquidos de mulher
e têm dentro peixes com olhos
exactamente iguais aos meus. estranho
o nome de uma mãe
desenha-se na minha boca quando chupo desse leite
branco
e nado nesse ventre líquido ao lado dos peixes
com olhos exactamente iguais aos meus. mãe? sim?
nada, não é nada.

eu
:sei que a
minha morte tem a minha cara e o nome que
não me dei e a minha própria boca cheia até ao céu de palavras
doces
inchadas de todos os nomes
excepto os que deveria ter
por exemplo
:amor.
que é quase tudo
excepto o que poderia ser.


primeiro:
está frio. e é noite. está tanto frio que me doem as letras nas articulações entre parte de
uma palavra e
outra.
frenéticas de dedos e pensamentos mancham a noite. a fingir de dia. o meu gato também finge
cloacas à noite
em equilíbrio sobre os muros de paredes estreitinhas
corre e não corre
e dá-se em fodas tão fingidas como estas palavras

(invento-me. e sobra-me sempre tudo)

para afugentar a pretidão da noite
a pretidão

o olho do cu do meu gato é um enorme vazadouro de pretidões e ele importa-se lá
foder
é para nós
que não somos gatos e temos cloacas ou olhos de cu
e medo da morte.
neste janeiro em março
oiço-lhe um longo miado.
enrabada na noite
a morte que dele espreita sai com passinhos leves
não faz um filho
não
não precisa.
a herança de um gato é sempre a própria morte
simples
branca de leite e quente quente. pequenina.
a minha
não. a minha morte é enorme como dois olhos vazadouros de palavras sem nome. e peixes com bocas cheias de palavras tão sem nome como as minhas. por exemplo
: o tempo do tempo todo
escorre-me dos dedos
como as nêsperas em sumo nos escorrem
sentados
ensolarados e
cheios de abismos com mães por dentro

mãe?
sim?
nada, não é nada

segundo:
o mar. ecoa contra as arribas desta terra
aqui
e dá-se em orgasmos de sal que se colam às janelas da nossa casa corredor. contemplo
esse som colado ao vidro e sei que é por causa do sal
suor cuspo lágrimas tudo
de tudo
que o vento é maresia
: sinto o meu ventre como maré de mar
que vai e
vem. em ondas de tempo salgado e luas e sóis e ainda outras e mais luas e
outros e mais
sóis. o meu sexo incha e dá-se
em águas salgadas
e em palavras que me escorrem pelos dedos como filhos
peixes maduros
de olhos exactamente iguais aos meus

mas
nunca nunca fiz uma palavra que fosse um filho teu maduro
ainda
de doce e nome por dizer

e do amor sobra-me sempre tudo – excepto o que deveria escrever

por exemplo: tenho todo o tempo para te dar
e

se escrevo é para inventar esse abismo em que
as águas da minha morte se separam.
por cima um céu de boca a escorrer sumo
por baixo um imenso olho em que a terra se abre
como um ventre líquido de mulher
com mães por dentro
e
a morte é apenas mais uma parideira
da minha noite noite e da minha noite dia


caminho por cima das águas e os dedos
gritos prolongados de gaivotas
são apenas asas curvas e ponteagudas que furam a própria pretidão

mãe?
sim?
nada, não é nada

terceiro:
sabes que usa uma espécie de cola que mantem os dentes falsos na boca
para quando falar mentir
com todos os dentes que tem no céu
da boca?

a dentição incompleta e por cada falsa
verdade um pensamento é arrancado à terra límbica que são os céus todos líquidos de uma mulher por dentro. acorda, vá, o veludo listrado de esperma vermelho
do sofá
grita em mãos e em bocas: que será que acontece ao tempo todo ao tempo
de tudo
quando já não temos dentes de morder e deixar que o sumo escorra
pelos cantos da boca cloaca mundo todo? é assim

a minha boca como o tempo todo esvazia-se e fica só um céu por cima e águas que já não se separam
e onde o branco branco
quente
é o teu e me escorre em não palavras em não nomes
e o tudo que é
excepto o que deveria ser


anda
vamos lagartear ao sol e deixar é cair uma parte de nós
essa que é tudo o que deveria exactamente ser
como cometa lagartixa e
rir
que a cauda de uma lagartixa cresce ainda que arrancada
quem me dera que o amor fosse assim, digo
pois, dizes,
um tempo esperma vermelho
de mãos e bocas
caudas cometas de lagartixa e miados
de gritar e foder a morte


quarto:
meu homem, diz lá
se te comer do pão com a boca toda e te beber
três vezes do vinho
com a boca de dentes toda
achas que vou direita ao céu da boca do teu amor?
sei lá,
depois de sonhares abismos as águas entram pelos olhos
e desatam-se em palavras sem nome
e nunca mais o amor é assim uma espuma como a do mar
leve
leve
tão leve que em tempos certos até pode voar

achas que o amor que é tudo
e mais essa palavra sem nome
pode voar-me por dentro?
não, o amor é tudo excepto essas asas nos pés. tem pés de chumbo e
puxa-te para uma pretidão tão preta que nem a ti
própria reconheces. não se dá em nomes
não conhece o teu rosto. anda por lá
meio às cegas e de vez
em quando
desata-se na tua língua
desfaz-se na tua pele como outrora a espuma de mar
e
tu cais lá dentro e é como um ventre fecundo
sempre a parir dias sempre a parir noites e
depois nunca mais caminhas a não ser agarrado a esse chão
voas, se calhar voas, mas é rente, sempre rente
à cova que os teus pés marcam
porque é assim como morrer
só que antes do tempo
antes do tempo todo do tempo

olha, uma cauda de lagartixa a caminhar sozinha.
é.


último:
estou só
com o meu gato de cloaca fingida estou só
e está frio e doem-me as articulações entre um pensamento
e uma palavra sem nome. doem-me as carnes em que os pensamentos à procura de nome
se dão em palavras e dói-me o meu sexo
inchado de tanto pensamento.

a avó dizia: veste a cinta, menina, aperta as carnes
e eu:
as minhas carnes crescem no exacto ponto em que a minha cona ainda ratinha de pelo penugem
deixa ver as entranhas do meu tempo
as minhas carnes é uma nêspera ensolarada e abismada
de sumo a escorrer pelos cantos da boca céu
e a sobrar em filhos de palavras sem nome
e filhos de homem
que não é o meu


chego-me ao meu homem de cheiro a meu homem e quase
sinto o cheiro do meu futuro tempo. mordo-lhe na boca um nome
para esta palavra sem nome.
o seu sangue tinge-me a noite e
separa os abismos do tempo. o meu ventre
líquido de todas as mulheres
dá-se em espuma
sim
leve
leve com sapatinhos de cristal que até podem fazer voar
e eu
digo vem
faz-me o amor em letras de carne
e dá-me
um nome porque


está frio. frio de orvalho que pinga não pinga nos beirais da nossa casa corredor e penso que tenho para aí oito anos e de pernas nuas e saia rodada sinto um lagarto descer pela roda ó i ó ai e não sou a carolina
mas estou do lado de cá do muro de parede estreitinha e os meus irmãos a gritarem
anda lá ó cagarolas ovo podre

oito infinito
par de olhos que espreitam a minha ratinha de pelo penugem e um fiozinho de sangue que é todo o tempo que havia nesse tempo
e não menstruo
sou uma menina que não corre e está em frente a um muro de parede estreitinha e alta
muito alta

gotas de minúsculo sangue caem nos abismos da cloaca terra e
o futuro é o meu sexo amadurecido como uma nêspera maltratada
(são sementes pequeninas, meu senhor, são sementes)
e com a boca cheia cuspo dias e cuspo noites
sementes de pretidão tão preta e tão pesada como cobertores de papa

o meu sexo não tem nome. mas poderia até ser gato.
ou ter o teu. de homem com cheiro a meu homem

deste outro lado do muro imagino até que posso ter oito anos e corro pelo muro em equilíbrio atrás dos meus irmãos
anda lá cagarolas o último a chegar é um ovo podre
e as pernas nuas e não uma saia mas um lagarto a comer
me
o sangue e não menstruo é apenas um joelho esfolado
ou uma ferida de tempo no tempo
ou um futuro de filhos a escorrerem
entre as pernas e

Mãe?
Sim?
Nada, não é nada

o meu homem cheira a meu homem e dorme ao meu lado
nesta pretidão da noite com roncos brancos de mar
e sangue e sal e cuspo e esperma de onda
de onda
do meu ventre abismo saem peixes de olhos
exactamente iguais ao dele
só que os dele estão escondidos atrás do sono
e nada, não é nada
apenas o tempo a roer
me
por dentro dos teus olhos que não vejo
das tuas mãos que estão enconchadas entre as tuas mamas
pequeninas
fingidas como mamas de mulher
mãe
o meu homem que imagino ser a minha mãe
e dar-me a beber o leite quente das suas mamas fingidas e colo
de mulher.
mas não. o sono dorme-o.

e eu
: não tens útero para tanto filho,
não tens.

e caminhas com os sapatos de chumbo
do amor

essa palavra sem nome
escreve-se torto pelas linhas a direito do
meu corpo

acorda
:quando eu morrer quero-me cinza no tronco
de uma nespereira
a mais maltratada e doce nespereira
depois
come dos frutos e cospe-me
em caroços
não sementes
não sementes
ao sol
ao sol


e anda lá, vem
amar-me ainda assim
ainda que na maior pretidão
a boca cheia até ao céu
dos abismos de peixes olhos
com o tempo a espreitar por entre a morte
e essa noite de muro de parede alta e estreitinha
:do lado de cá é o amor que é quase tudo-excepto o que deveria ser
:do lado de cá são os meus quinze anos
e menstruo
:do lado de cá o tempo todo que havia de haver nesse tempo todo e

finalmente
não parir-te um filho
antes
apertar-te entre as carnes do meu próprio nome

dizes
:perfilhar-te

que é tudo o que deveria ser. o amor.


blimunda dixit

19 fevereiro 2006

20. Tempo de Inverno


são curtos dias de alongar
gelos que a manhã desperta
vento que solta estranho grito
silvo de dor desfeita em água fria
abrem-se as mãos ao sol do dia
para amanhã a vida se enrolar
casulo que espera borboleta

o canto cinza do amanhecer
embala a melancolia da terra
dormente, deitada em silêncio
sabendo o segredo que o ventre
carrega onde o frio não chega
esperança calada da semente
doçura verde do renascer


Lique dixit

17 fevereiro 2006

19. A morte


Estranho o acto de se contemplar a si mesmo deitado no solo. A sensação era a de ser uma massa inerte e despojada de vida.
Apesar das sombras que contornam o corpo e que se movem na exacta velocidade do rodar do Sol e da Terra.
Como seria de esperar, não existia simetria entre o corpo e as sombras; estas estavam mais descaídas na obliquidade da paragem forçada do corpo que apenas se move em função dos movimentos circulares das voltas da Terra sobre si mesma e das enormes parabólicas em torno do Sol. Tudo ao ritmo lento da Natureza.

[Natureza morta] pensou de si para si; o nada que se via a si mesmo deitado de encontro ao solo.

A projecção [dele próprio, corpo morto]. Sorriu.

Sabia vagamente que flutuava embora não entendesse porquê, da mesma forma que [lhe] era ininteligível o facto de estar a ver-se de costas [as imagens reflexas que havia obtido no espelho – apenas de frente – devolveram-lhe sempre uma imagem em negativo de alguém de quem não desgostava. [Corpo esguio]

Odiava a posição em que se encontrava – por ser uma exposição? – caído de bruços com a perna esquerda esticada e o pé ligeiramente de lado, enquanto que a direita se tinha recolhido a uma espécie de posição fetal – O pequeno corrimento rubro que saía pela nuca dava-lhe a sensação de que poderia estar morto, o que parecia obviamente uma impossibilidade já que se conseguia olhar a si mesmo e sentir o movimento das pessoas a circularem na rua – alheias ao corpo caído – o ruído dos automóveis e até algumas graçolas de mau gosto.

Preocupava-se sobretudo com as sombras, enormes contornos escuros que se moviam com uma lentidão arreliadora.

A invisível campânula vítrea abafava os sons sem deixar entender aos transeuntes a voz que em pânico gritava palavras sem nexo.

Voltou a sorrir quando entendeu que era um indigente, um sem-abrigo, alguém que simplesmente tinha sido despojado de toda a dignidade. A morte sobreviera e apenas os contornos de uma sociedade estranha e sem humanidade permaneciam na memória que o acompanharia na longa viagem a outras dimensões.

Tudo agora eram sombras e inevitabilidades.



LetrasAoAcaso dixit

18. simbiose


Flávio Machado (c)


nos cabelos submersos
da manhã
caminha a garça

por ventura ou
por desgraça
neles embaraça os pés

de tal modo entrelaçadas
seguem sem vôos
garça e manhã
até que o sol se ponha
até que a noite se faça

e seja a manhã não-manhã
e seja inda garça a garça



Márcia Maia dixit

17. almost blue


mais que azul é o céu azul
visto entre os verdes
e essa lua que se achega
almost early
antes de a tarde partir

almost velho
vai janeiro em fevereiro e
os mistérios que em nós
nos inscrevemos
almost jealous
mês nenhum vai descobrir

(chet toca à distância e eu
penso em ti
de
desejo o meu corpo
almost arde
arderá também o teu longe
de mim?)

almost tarde
passa a noite e à madrugada
almost tired
adormeço lado-a-lado
com a saudade

almost lonely
almost tua

almost blue



Márcia Maia dixit

12 fevereiro 2006

16. LÁ ONDE A ÁGUA INSONE


Lá onde a água insone
faz a terra negra clarear
logo que a noite se perdeu
levantei tranquilo
a fina colcha do mar
para na minha face esquerda
contemplar
a cruz ocre
que a areia do tempo nela ergueu.


Henrique Dória dixit

10 fevereiro 2006

15. enquanto...

Havia um banco. Um banco igual àquilo a que se chama banco de assentar. Quatro pernas e um tampo. Quatro travessas a unir as pernas. Um ângulo desviava de cada uma a outra perna e desperpendiculava uma e as quatro do horizontal do chão. (afinal todos sabemos o que é um banco neste contexto de descrição de casa). No demais era um espaço. No demais eram corpos deitados. Juntos. Aconchegados. Apertados. Dormiam numa colcha de cheiro a descomidos.
Pancadearam na grade. (Podíamos dizer simplesmente que bateram à porta. Mas se não havia isso, há que encontrar modo de dizer de onde aquele ruído.) Um ruído surdo sobre tábua que é muitas tábuas com vários entres entre elas. Duas vezes bater. Às duas, foi ela que acordou. Ela. Um dos eles que dormia aconchegado, apertado (como vos aprouver). Arrumou um olho aberto. A cabeça descaiu do lado do ouvido que primeiro ouvira. Quem seria?! E isto não pensou. Gritou para o de lá dos entre tábuas quem é? Um grito que sabe, não é grito. Afirmação, não pergunta. Ela não falou. (podíamos dizer, apenas, que ela acordou com aqueles bates e esfregou um olho e pensou: “quem será?” mas... não foi bem assim...) Ergueu-se. Um corpo por de cima de outros. Alinhado numa vertical. Mais os outros se ficaram vistos na contrária posição. Corpos outros, que não ela, ondularam em espasmos de desouvir remurejando babas e sonidos sem voz e sem tino. Ela, a mão, nas tábuas. Os entres e as tábuas deslocadas para um ângulo agudo com... (podíamos dizer, simplesmente: levantou-se e abriu a porta, mas... não foi bem isso...).
Assombreou-se o escuro do de cá do ângulo, com o escuro do de lá. O ensombreado deslocou-se. O ângulo desfez-se. Ela seguida pelo que ensombreou. Acresceu um odor novo. Tudo renovou à horizontal. Tudo, não. O banco! O banco a fazer quatro ângulos com o tudo embaixo a ele.
Cheirava a cheiros. Rugiam silêncios entre corpos. Silvos. Esgares. Soluços. Fungares. Um choro. Um vagido. Um ranger de molares.
Nos entre as tábuas começava a clarear. O banco assomando num raio de sol à altura, precisa e segura, de uma mão, a primeira a sair de leve, nua, para o acordar de um dormir (aconchegado ou apertado, como vos aprouver) e correr para o de lá da rua.

Enquanto não consigo escrever o que se passou. Enquanto...outros o dizem de simples escrever...enquanto...escrevi este aqui - tem no por debaixo o que eu queria e não me sai de dizer nem, inda menos, escrever (e sangra...)


Seila dixit

14. lua cheia


Cansara de aguardar. Um dia atrás do outro. Um de riachos de água a desentupir sujeiras. Em outro, brasas de lume sobre a terra e nem maior se daria a secura...esta e o odor...aquele dançar de partículas de coisa que já fora.

Cansara. De Junhos e Setembros. Também dos que lhes ficavam, antes, depois e no entre. Aguardar é demais que espera. De espera a gente sabe que aquilo chega. De aguardar a gente nunca sabe. Até se dá em deslembrar . Fica só entalado num desvio da memória.

Ele cansara disso.

Num dos Dezembros, o pai morrera.

Não chorara. Não lhe entendeu aquilo na cara choro. Estranhara só.

Uma noite de um desses meses...puxaria a camisola para o pescoço. Abotoaria o éclair das de ganga. No bolso a carteira documentos notas. Aos pés da cama deixaria um cartão...pedaço de uma oferta de um Dezembro. Escreveria fui. Em letras garrafais. Ninguém que visse se deslembraria. Ficaria antes correndo. Procurando. Ele já iria em outro Junho. Nem seria já ele. Ele descambado de aguardar. Ele cumprimentado daqueles que passavam. Ele sempre quieto. Sentado na soleira da porta...arrimado ao pé do limoeiro. Arrumando sonhos.

Partiria.

Puxou a camisola para o pescoço.... apanhou um limão.

A lua rebentava de brilhos de cheia. Pisou a soleira. Entrou. A luz da lua estendia um lençol sobre a cama.

No mês de dois seguintes o limão mirrara. Na cama outro lençol de lua.

Ele já não era ele. Dizia assim quem o cumprimentara cansado de aguardar.... Diziam...num mês depois de dois...cuidaram que partira...ele apenas cansara. Cansara de aguardar.

Um dia atrás do outro...cansara.

Dormitório III, Vincent Van Gogh



Seila dixit

06 fevereiro 2006

13. Contando a vida, contando histórias...


Não gosto de enterros, muito menos de despedidas, mas vou num e faço o outro sempre que necessário. Enterro meus mortos até o fim. Velo os que gosto e visito, formalmente, os necessários.
Me recuso a dizer meus sentimentos. São realmente meus e deles só eu sei. Por isso, se não sinto, não digo. E se sinto, não falo.
E é bem assim que gosto de levar e ser levada. Pela vida, kismet selecionado.
Não contava com os imprevistos. Ficar viúva, um deles. Cansei de dizer que não pedi para ficar viúva. Desnecessário dizer, não me ouviam. Vivem a viuvez como doença contagiosa, perigosa e epidêmica.
Sexta de quase páscoa e resolvo, porque é a época do renascimento interior, abrir seus guardados.
Seus pertences, ternos gravatas e camisas, imediatamente após sua morte, foram retirados pelo irmão que se nega a sentir dor. Morrer, para ele, significa, até hoje, nunca existiu. Em dois dias ele finalizou com qualquer você que ele encontrasse pelo caminho. As crianças ficaram com as fotos, que eu tinha, e nada mais. Nenhuma peça, nenhuma relíquia, péssimas lembranças.
Sexta, madrugada de sábado, e acho que chegou a hora. Nunca disse a ninguém que todos os seus arquivos estavam aqui. Quando vi a desolação que ficou a casa, quieta, separei em pastas todos os teus papéis, que estavam aqui e ali, e juntos, guardei-os para mexer não sei quando.
Chegou o quando e sozinha, sentei para ver o que devo fazer de suas memórias.
Você guardou meus bilhetes de namorada... eu nem sabia. Separei na caixa verde. Caixa para pensar o que fazer. As contas, direto no saco preto, lixo. Rasgadas, picotadas, como era a sua vontade. Os impostos? Mesmo caminho. A jurisprudência me reservo o direito de ler mais tarde. São cansativas, para mim, até hoje.
Não larguei à toa meu curso de direito... entendi melhor seu trabalho mas, por outro lado, desisti com a certeza de não estar perdendo nada de importante para mim. Meu direito era você.
Encontrei o registro do nascimento das crianças, nossos termos de adoção das meninas pequenas, a receita da sopa do nosso primeiro. Uma das muitas fraldas que amarravam as pernas do segundo, para que sozinhas fossem formando sua bacia. Os primeiros cachos loiros da filha, que hoje é morena. Com algumas mechas que, tenho certeza, você não teria autorizado. A pulseira do hospital das duas molecas e, para lerem depois, o processo de adoção das meninas.
Brigamos muito com isso. Você não admitia que eu falasse em adoção perto delas. Quero te dizer: elas estão ótimas, e sabem, não só da adoção como adoram ouvir as loucuras que fiz para tê-las rápidamente perto da gente.
E encontrei uma senha. Fui ao seu micro e escrevi. Abriu como cascata, pastas, documentos. Três novos livros que deixarei para as crianças. Elas saberão o que fazer...mais tarde.
E vi cartas, muitas cartas. Em momento algum achei que fossem para outra pessoa que não eu. Por isso fui abrindo-as. Mas eram. Falavam de um marido que jamais imaginei. Coisas novas. Diferentes. Dolorosas.
Imprimi a primeira só para poder rasgar. Apertar a tecla delete era pouco para meu ciúme e raiva. A segunda que abri. Com três meses de diferença da primeira, marcava um encontro. Não quis saber. Pulei para o outro ano.
O nome havia mudado.
Voltei, já atordoada. A primeira era R. e a segunda, S. Oras se sou Maria, de onde saíram tantas letras diferentes? Continuei, soluçando, com essa busca tardia. Busca besta, a bem dizer. O que posso fazer agora, dois anos depois que morreu?
Se berrar muito alto acordo as meninas. Se sapatear, o vizinho de baixo reclama que não o deixo dormir. Mas a curiosidade, essa, me fez querer saber mais. Como se fosse possível novo sofrimento, dois anos depois.
Continuei lendo, abrindo e-mails, chorando. Para acompanhar resolvi tomar um scoth. Abri seu rótulo preto. Só para misturar com guaraná. Não nasci para whiskies, mas sim para vinhos. Abri um Udurraga. Acabei logo. Segui com aquele Côtes du Rhône que gostava de tomar quando ouvíamos Jazz. Que sempre achei uma coisa só nossa. Quando leio que pretende levar a quarta letra, a letra F., para ouvir jazz no All. Ah, juro homem, que meu sangue ferveu. Joguei da garrafa pela janela, mas arrependida, corri ver se não tinha machucado ninguém. Às quatro da madrugada realmente ninguém se apossa daqui. Se tu queria briga era briga que teríamos.
Abri a Cristal e joguei na mesma janela por onde mandei o vinho. Peguei da viúva, a Robert não a Clicot e também deitei janela abaixo. Os moços que na rua dormem, agradeceram meu acesso raivoso. Irritada com tantos nomes femininos em seus arquivos, pachorrenta, desci, madrugada mesmo, caixas e caixas de vinhos, uísques e pingas que fizeram meus homens de rua cada vez mais felizes.
— Agradeçam a ele, e apontei o céu, e não a mim.
— É a Páscoa, disse um deles, Deus morreu e tá chorando pinga hoje.
Não tive como não rir... ri, voltei pra casa e tranquei bem a porta. Você não me sai mais daqui até me dizer o que é essa profusão de letras femininas pulando em meus dedos.
A campainha toca. Horário estranho.
Era o Márcio, da padaria, querendo saber se eu realmente tinha dado aos moços toda aquela vinhataria.
— Por enquanto estou dando só os vinhos, respondi grosseira.
— Se for dar mais alguma coisa me avise, que atravesso a rua antes deles... ele riu, pobre Márcio.
Retruquei — Agora só dando o rabo.
É... estava brava. Não sou de responder e abomino as grosserias.
— Se for dar esse aceito também, respondeu Márcio. Ai desci, ou foi ele que subiu, mas estávamos rindo e tomando vinho em alguma hora que nem me dei conta.
Contei a ele da traição pós túmulo.
—Dona Maria, o falecido já faleceu mesmo, liga pra isso não.
— Você nunca teve marido, Márcio. Não sabe o que é isso.
— Ah, dona Maria, marido não tive não, mas esposa já tive algumas.
— Algumas, Márcio? Mas não quis saber. Hoje só me interessavam aquelas letras femininas. Em outra hora que também não sei predizer, ele estava mexendo no computador. Me chamou, sentou-me com cuidado e foi lendo uma enorme carta.
Uma despedida. Querendo morrer e não sabendo como, querendo deixar a pensão e sabendo que não poderia se matar, o falecido começou uma jornada à cata de doenças. Com tantas mulheres, conseguiu nenhuma doença, nenhum problema. Diabético que era. deixou escrito que começava ali o final do seu destino. Seu Beshér, destino, judaico-cristão. Aumentando a bebida, açúcares e outros proibidos. Realmente. Um ano após seu kismet literário, faleceu.
Suicídio voluntário sem arma e sem sangue.
Márcio pode até se consolar. Eu não.
Enterrei definitivamente o falecido quando cheguei na letra Z. Mulheres meio honestas não têm nomes começados pela letra zê.
Márcio desceu, deixei a porta destrancada. Não quero nunca mais que fiques aqui por perto. Saia que a porta está sempre aberta. Não tranco mais viva alma comigo.
E sua memória, deletei pela tecla FODA-SE.
Amanhã volto ao luto, que não curti. Ao preto que adoro usar. E à condição de viúva. Que atrai mais moços que mel e perfume.
E tenho dito... tenho...



Maria Odila dixit

05 fevereiro 2006

12. Presidência e Ais

Presidência e Ais - I
Ao pronunciar-se contra Cavaco, Santana Lopes feriu de morte todas as outras candidaturas.

Presidência e Ais - II
As muletas de Sócrates dão-lhe uma vantagem preciosa para defrontar Cavaco no difícil jogo do equilibro de poderes, que se avizinha. Cavaco, entretanto, já encomendou uma cadeira de rodas, duas arrastadeiras e um fato insuflável do género "sempre-em-pé" (cor de laranja), não vá o diabo tecê-las.

Presidência e Ais - III
80% do tempo desta campanha tem sido gasto a discutir o passado: o passado do candidato, o candidato no passado disse que, no passado o candidato fez assim e assado, o candidato está passado... É hora de desmistificar o passado. Assim, na verdade, Soares tem passado pelas brasas, nos troços de ligação entre arruadas, Cavaco tem passado assim-assim, porque lhe cai mal o lombo assado dos jantares-comícios, Alegre tem passado mal, com cãibras nas pernas, Jerónimo tem passado por bom rapaz, Louçã tem passado por Jerónimo e Garcia Pereira tem passado umas camisas a ferro, que se não for ele a fazer as coisas, também ninguém as faz. Pode agora falar-se do futuro?

Presidência e Ais - IV
Sondagem dá candidatos da esquerda taco-a-taco com a média nacional dos exames de matemática. "É uma poupança em gráficos que nem lhes conto", diz director de jornal. "Só precisamos de trocar o nome da disciplina pelo nome do candidato. Para o candidato da direita estamos a usar os quadros de um inquérito ao consumo de haxe em 20 escolas da Grande Lisboa. Qualquer coisa a rondar os 60 por cento já dá", adiantou, sem se querer identificar.

Presidência e Ais - V
Governo implementa sistema de moderação de comentários em Soares. A tecnologia, desenvolvida pela Haloscan, permite a monitorização e aprovação dos comentários do candidato sobre assuntos do Governo, pelo ministro responsável, mesmo com este ausente no estrangeiro. O primeiro teste seria levado a cabo hoje pelo ministro da Defesa, a partir da China, mas dificuldades na ligação via satélite aos estaleiros de Viana do Castelo impediram um resultado satisfatório.

Presidência e Ais - VI
Teoricamente, Alegre pode muito bem vir a ser o único candidato Alegre, na noite das eleições.

Presidência e Ais - VII
Jerónimo de Sousa garante ter conquistado 80% dos votos de Boas Festas na freguesia de Paio Pires.

Presidência e Ais - VIII
Garcia Pereira e Francisco Louçã disputam renhidamente os votos de "boas melhoras e rápida recuperação" dos acamados do Hospital do Barlavento Algarvio.

Presidência e Ais - IX
Viúva de taxista de Lagoa oferece os votos de pesar pelo seu falecido marido a Cavaco Silva.

Presidência e Ais - X
À revelia da Câmara de Lisboa, as noivas de Santo António entregam esta sexta-feira a Manuel Alegre 1374 votos de Felicidades ao Jovem Casal, 38 bouquets de noiva, um passe vitalício da Carris e um cartão-desconto do Cabeleireiro das Avenidas, válido até Abril de 2007.

Presidência e Ais - XI
António Guterres fez saber em Nova Iorque que se não tivesse engravidado Angelina Jolie não tivesse engravidado, era bem capaz de contar com o apoio dela, numa eventual candidatura de última hora à segunda volta das presidenciais e que mesmo assim ainda ia pensar. Guterres, recorde-se, é o português que consegue congregar maior número de apoiantes no estrangeiro, estimando-se que só os votos da África Sub-Sahariana já chegariam para lhe garantir uma vitória folgada. A candidatura, a ser lançada, terá o alto patrocínio do arroz Cigala.

Presidência e Ais - XII
Candidatos garantem apoios para uma eventual 2ª Volta: Cavaco assegurou hoje o patrocínio da Milaneza/Maia, Soares tem prometido o apoio da Paredes-Rota Móveis/BeiraTâmega e Alegre espera fechar amanhã contrato com a Barbot/Pascoal. Estão assim reunidas todas as condições para uma 2ª Volta disputada ao sprint, com as atenções voltadas para o desempenho dos candidatos na subida à Senhora da Graça. A organização e os direitos de transmissão televisiva estão nas mãos de João de Lagos, que já garantiu nomes sonantes da alta-roda mundial para as próximas 26 edições das Presidenciais.

Presidência e Ais - XIII
Louçã não consegue captar votos professados por religiosas de clausura, revela sondagem.

Presidência e Ais - XIV
Alegre propõe-se fazer de dia 22 uma festa da língua portuguesa. O candidato disponibilizou-se para declamar cadernos eleitorais junto de algumas mesas de voto e apelou para que os restantes candidatos façam o mesmo, estando apenas a aguardar luz verde por parte da CNE.

Presidência e Ais - XV
Garcia Pereira já mandou imprimir os 782 cartões "/agradece e retribui" com que vai agradecer os votos obtidos.

Presidência e Ais - XVI
Votar é um direito. Já os esquerdos, nestas eleições, são cinco.

Presidência e Ais - XVII
Votar é um dever. Bacalhau é um de comer. Autocarro é um de andar. Rádio é um de ouvir. Estamos entendidos?

Presidência e Ais - XVIII
Votar em branco é um acto de racismo?

Presidência e Ais - XIX
ÚLTIMA HORA: Pilar da Ponte apoia tabuleiro.

Presidência e Ais - XX
Sondagem dá vantagem ao 2 como resultado possível da adição 1+1.

Presidência e Ais - XXI
Era muito mais emocionante se as Presidenciais se decidissem através de pontapés da marca de grande penalidade.

Presidência e Ais - XXII
SONDAGEM: COMO ACHA QUE VAI SER A PARTICIPAÇÃO ELEITORAL NO PRÓXIMO DOMINGO?
[Manuel Albergaria, Rio de Moinhos]

"Olhe, Deus queira que haja uma corrida às urnas. É só o que eu peço. Nem que fosse só pinho, já dava para orientar o ano, se é que me faço entender."
Manuel Albergaria, agente funerário, Rio de Moinhos.

Presidência e Ais - XXIII
ÚLTIMA HORA: Santa Casa põe Grupo de Apoio ao Alto Premiado à disposição do vencedor das Presidenciais 2006. "É a nossa missão, prestar apoio e aconselhamento aos vencedores, pelo menos numa primeira fase, enquanto não se habituam à ideia. As pessoas acabam por nunca estar preparadas para uma coisa destas", disse fonte ligada à SCML por um cano de três polegadas, galvanizado.

Presidência e Ais - XXIV
Sala dos Espelhos do Palácio Foz esgotadíssima para a jornada de reflexão de amanhã. Bilhetes no mercado negro atingem já os 350 euros.

Presidência e Ais - XXV
A poucas horas do início do período de reflexão: vendas de Ajax Limpa-vidros disparam para o triplo.

Presidência e Ais - XXVI


Presidência e Ais - XXVII
Terminou a campanha. Agora é tempo de tomar um banho e ir para os largos, bailar com as raparigas namoradeiras e beber vinho novo em malgas de barro.

Presidência e Ais - XXVIII
Depois de falharem no Euromilhões da passada sexta-feira, 8.9 milhões de portugueses vão hoje tentar acertar no próximo Presidente da República.

Presidência e Ais - XXIX
Dos seis, só um se vai deitar Cavaco e acordar Presidente da República. Espero eu.

Presidência e Ais - L,VI
- (...) e eu, Aníbal António, prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.
Beijam-se. [GRANDE PLANO, EM CONTRA-LUZ].
Aníbal pega-lhe ao colo, salta para cima do cavalo e exclama:
- Para Belém e mais além. Yeeha! - afastando-se em direcção ao pôr-do-sol, sob o olhar cúmplice de Kid Sócrates. Mário e Manuel choram, abraçados. Jerónimo e Francisco seguram Garcia, que esbraceja. Rantanplan corre atrás do cavalo.
[TRAVELLING LONGO DA CÂMARA EM CONTRA-PICADO, AO SOM DE "A PORTUGUESA". FADE OUT. ENTRA O GENÉRICO]
Fim.

Presidência e Ais – Res Caldo
Parabéns a todas as freguesias que ficaram apuradas e boa sorte para o próximo sorteio.
Portugal mostrou mais uma vez a sua capacidade em organizar eventos desta dimensão, capazes de mobilizar o país de norte a sul, projectando lá fora a imagem de que uma vitória de 30 por cento sobre o segundo candidato (a par da conquista de 17 dos 18 distritos em jogo) pode ser, afinal, uma "vitória tangencial" de onde o vencedor sai fragilizado e em que a derrota da esquerda é lamentada pela "ausência mais candidatos à direita" por putativos candidatos da própria direita (P.S. Lopes et al, Lisboa, 2006). Matéria mais que suficiente para umas largas dezenas de case-study's reveladores das idiossincrasias nacionais, portanto.


José Nunes dixit

30 janeiro 2006

11. a ponte



Parávamos a meio da Ponte 25 de Abril. Se fôssemos rápidos, a coisa resolvia-se sem muitas chatices. Fazíamos o que tínhamos a fazer, metíamo-nos no carro, dávamos a volta a Alcântara e regressávamos a casa.

Por vezes, quando eram muitos ou quando tu te comovias particularmente, os minutos alongavam-se terminávamos por ter a companhia do carro da GNR. Perdi a conta ao número de vezes em que tive de explicar ao graduado de serviço ao que vínhamos. Cansava-me de explicar que embora fosses calada e eu te acompanhasse em silêncio, não éramos potenciais suicidas nem nos passava pela cabeça atirarmo-nos da ponte abaixo. Não éramos desses. Com o passar do tempo, acabámos por ficar conhecidos do pessoal do Posto e a vida tornou-se mais fácil.

O ritual era sempre o mesmo. Saías de manhã, bem cedinho. Apanhavas o barco das 05.15 para o Cais do Sodré e fazias a tua peregrinação de sempre pela Ribeira.

As bancas do peixe eram a tua perdição. Passavas horas naquilo. Pé após pé, fazias quilómetros dentro do Mercado. Alinhados nas pedras, cobertos de gelo, os peixes fitavam-te, olhos nos olhos. Descobrias entre todos eles os mais infelizes, os mais desalinhados, os mais desconsolados. E, invariavelmente, comprava-los todos.

Carregada com os peixes mais tristes do dia, retornavas a casa. Na manhã que te sobrava e durante toda a tarde, celebravas as exéquias devidas: vestias-te de negro, oravas, meditavas e choravas. Depois, quando o turno da Setenave terminava e eu regressava a casa, comias em silêncio a malga da sopa e o pão escuro e duro que nela demolhavas. Depois esperávamos até que a tabela das marés que tinhas sempre contigo te indicasse a hora certa para a viagem - confesso-te que, de todos os rituais que tu tinhas, essa espera era o momento que mais me custava a passar. Dizias que não querias que eles fossem dar a Vila Franca ou que apodrecessem no Mouchão de Alhandra. Que com a maré vazante eles descansariam em paz eterna, no oceano profundo. Que do mar vieram e ao mar retornariam, algas às algas, areia à areia. E eu acreditava.

De mãos nos bolsos, imóvel sobre o tabuleiro, indiferente aos carros que travavam e apitavam, ficava a ver o teu choro triste quando te despedias deles e os lançavas um a um da ponte abaixo. Pescadas, corvinas, cações, salmonetes, toda a espécie de peixe de todo o mar de Portugal era objecto da tua compaixão diária, do teu luto desenfreado.

Sabes bem que nunca te quis mal, amor. Sabes bem que me era muito difícil poder pagar todos os peixes que compravas, que a vida foi sempre madrasta para nós, que tudo se tornou cada vez mais difícil depois da fábrica ter fechado as portas.

Quero que saibas que penso muito, muito em ti. E que choro muito, mas mesmo muito, sempre que aqui na prisão nos servem pescada cozida ou carapaus com molho à espanhola. Nesses dias, nada como. Passo fome. E grito. Grito como tu gritaste quando naquele dia te empurrei em direcção à paz eterna no mar profundo.


Alexandre Monteiro dixit