19 fevereiro 2006

20. Tempo de Inverno


são curtos dias de alongar
gelos que a manhã desperta
vento que solta estranho grito
silvo de dor desfeita em água fria
abrem-se as mãos ao sol do dia
para amanhã a vida se enrolar
casulo que espera borboleta

o canto cinza do amanhecer
embala a melancolia da terra
dormente, deitada em silêncio
sabendo o segredo que o ventre
carrega onde o frio não chega
esperança calada da semente
doçura verde do renascer


Lique dixit

17 fevereiro 2006

19. A morte


Estranho o acto de se contemplar a si mesmo deitado no solo. A sensação era a de ser uma massa inerte e despojada de vida.
Apesar das sombras que contornam o corpo e que se movem na exacta velocidade do rodar do Sol e da Terra.
Como seria de esperar, não existia simetria entre o corpo e as sombras; estas estavam mais descaídas na obliquidade da paragem forçada do corpo que apenas se move em função dos movimentos circulares das voltas da Terra sobre si mesma e das enormes parabólicas em torno do Sol. Tudo ao ritmo lento da Natureza.

[Natureza morta] pensou de si para si; o nada que se via a si mesmo deitado de encontro ao solo.

A projecção [dele próprio, corpo morto]. Sorriu.

Sabia vagamente que flutuava embora não entendesse porquê, da mesma forma que [lhe] era ininteligível o facto de estar a ver-se de costas [as imagens reflexas que havia obtido no espelho – apenas de frente – devolveram-lhe sempre uma imagem em negativo de alguém de quem não desgostava. [Corpo esguio]

Odiava a posição em que se encontrava – por ser uma exposição? – caído de bruços com a perna esquerda esticada e o pé ligeiramente de lado, enquanto que a direita se tinha recolhido a uma espécie de posição fetal – O pequeno corrimento rubro que saía pela nuca dava-lhe a sensação de que poderia estar morto, o que parecia obviamente uma impossibilidade já que se conseguia olhar a si mesmo e sentir o movimento das pessoas a circularem na rua – alheias ao corpo caído – o ruído dos automóveis e até algumas graçolas de mau gosto.

Preocupava-se sobretudo com as sombras, enormes contornos escuros que se moviam com uma lentidão arreliadora.

A invisível campânula vítrea abafava os sons sem deixar entender aos transeuntes a voz que em pânico gritava palavras sem nexo.

Voltou a sorrir quando entendeu que era um indigente, um sem-abrigo, alguém que simplesmente tinha sido despojado de toda a dignidade. A morte sobreviera e apenas os contornos de uma sociedade estranha e sem humanidade permaneciam na memória que o acompanharia na longa viagem a outras dimensões.

Tudo agora eram sombras e inevitabilidades.



LetrasAoAcaso dixit

18. simbiose


Flávio Machado (c)


nos cabelos submersos
da manhã
caminha a garça

por ventura ou
por desgraça
neles embaraça os pés

de tal modo entrelaçadas
seguem sem vôos
garça e manhã
até que o sol se ponha
até que a noite se faça

e seja a manhã não-manhã
e seja inda garça a garça



Márcia Maia dixit

17. almost blue


mais que azul é o céu azul
visto entre os verdes
e essa lua que se achega
almost early
antes de a tarde partir

almost velho
vai janeiro em fevereiro e
os mistérios que em nós
nos inscrevemos
almost jealous
mês nenhum vai descobrir

(chet toca à distância e eu
penso em ti
de
desejo o meu corpo
almost arde
arderá também o teu longe
de mim?)

almost tarde
passa a noite e à madrugada
almost tired
adormeço lado-a-lado
com a saudade

almost lonely
almost tua

almost blue



Márcia Maia dixit

12 fevereiro 2006

16. LÁ ONDE A ÁGUA INSONE


Lá onde a água insone
faz a terra negra clarear
logo que a noite se perdeu
levantei tranquilo
a fina colcha do mar
para na minha face esquerda
contemplar
a cruz ocre
que a areia do tempo nela ergueu.


Henrique Dória dixit

10 fevereiro 2006

15. enquanto...

Havia um banco. Um banco igual àquilo a que se chama banco de assentar. Quatro pernas e um tampo. Quatro travessas a unir as pernas. Um ângulo desviava de cada uma a outra perna e desperpendiculava uma e as quatro do horizontal do chão. (afinal todos sabemos o que é um banco neste contexto de descrição de casa). No demais era um espaço. No demais eram corpos deitados. Juntos. Aconchegados. Apertados. Dormiam numa colcha de cheiro a descomidos.
Pancadearam na grade. (Podíamos dizer simplesmente que bateram à porta. Mas se não havia isso, há que encontrar modo de dizer de onde aquele ruído.) Um ruído surdo sobre tábua que é muitas tábuas com vários entres entre elas. Duas vezes bater. Às duas, foi ela que acordou. Ela. Um dos eles que dormia aconchegado, apertado (como vos aprouver). Arrumou um olho aberto. A cabeça descaiu do lado do ouvido que primeiro ouvira. Quem seria?! E isto não pensou. Gritou para o de lá dos entre tábuas quem é? Um grito que sabe, não é grito. Afirmação, não pergunta. Ela não falou. (podíamos dizer, apenas, que ela acordou com aqueles bates e esfregou um olho e pensou: “quem será?” mas... não foi bem assim...) Ergueu-se. Um corpo por de cima de outros. Alinhado numa vertical. Mais os outros se ficaram vistos na contrária posição. Corpos outros, que não ela, ondularam em espasmos de desouvir remurejando babas e sonidos sem voz e sem tino. Ela, a mão, nas tábuas. Os entres e as tábuas deslocadas para um ângulo agudo com... (podíamos dizer, simplesmente: levantou-se e abriu a porta, mas... não foi bem isso...).
Assombreou-se o escuro do de cá do ângulo, com o escuro do de lá. O ensombreado deslocou-se. O ângulo desfez-se. Ela seguida pelo que ensombreou. Acresceu um odor novo. Tudo renovou à horizontal. Tudo, não. O banco! O banco a fazer quatro ângulos com o tudo embaixo a ele.
Cheirava a cheiros. Rugiam silêncios entre corpos. Silvos. Esgares. Soluços. Fungares. Um choro. Um vagido. Um ranger de molares.
Nos entre as tábuas começava a clarear. O banco assomando num raio de sol à altura, precisa e segura, de uma mão, a primeira a sair de leve, nua, para o acordar de um dormir (aconchegado ou apertado, como vos aprouver) e correr para o de lá da rua.

Enquanto não consigo escrever o que se passou. Enquanto...outros o dizem de simples escrever...enquanto...escrevi este aqui - tem no por debaixo o que eu queria e não me sai de dizer nem, inda menos, escrever (e sangra...)


Seila dixit

14. lua cheia


Cansara de aguardar. Um dia atrás do outro. Um de riachos de água a desentupir sujeiras. Em outro, brasas de lume sobre a terra e nem maior se daria a secura...esta e o odor...aquele dançar de partículas de coisa que já fora.

Cansara. De Junhos e Setembros. Também dos que lhes ficavam, antes, depois e no entre. Aguardar é demais que espera. De espera a gente sabe que aquilo chega. De aguardar a gente nunca sabe. Até se dá em deslembrar . Fica só entalado num desvio da memória.

Ele cansara disso.

Num dos Dezembros, o pai morrera.

Não chorara. Não lhe entendeu aquilo na cara choro. Estranhara só.

Uma noite de um desses meses...puxaria a camisola para o pescoço. Abotoaria o éclair das de ganga. No bolso a carteira documentos notas. Aos pés da cama deixaria um cartão...pedaço de uma oferta de um Dezembro. Escreveria fui. Em letras garrafais. Ninguém que visse se deslembraria. Ficaria antes correndo. Procurando. Ele já iria em outro Junho. Nem seria já ele. Ele descambado de aguardar. Ele cumprimentado daqueles que passavam. Ele sempre quieto. Sentado na soleira da porta...arrimado ao pé do limoeiro. Arrumando sonhos.

Partiria.

Puxou a camisola para o pescoço.... apanhou um limão.

A lua rebentava de brilhos de cheia. Pisou a soleira. Entrou. A luz da lua estendia um lençol sobre a cama.

No mês de dois seguintes o limão mirrara. Na cama outro lençol de lua.

Ele já não era ele. Dizia assim quem o cumprimentara cansado de aguardar.... Diziam...num mês depois de dois...cuidaram que partira...ele apenas cansara. Cansara de aguardar.

Um dia atrás do outro...cansara.

Dormitório III, Vincent Van Gogh



Seila dixit

06 fevereiro 2006

13. Contando a vida, contando histórias...


Não gosto de enterros, muito menos de despedidas, mas vou num e faço o outro sempre que necessário. Enterro meus mortos até o fim. Velo os que gosto e visito, formalmente, os necessários.
Me recuso a dizer meus sentimentos. São realmente meus e deles só eu sei. Por isso, se não sinto, não digo. E se sinto, não falo.
E é bem assim que gosto de levar e ser levada. Pela vida, kismet selecionado.
Não contava com os imprevistos. Ficar viúva, um deles. Cansei de dizer que não pedi para ficar viúva. Desnecessário dizer, não me ouviam. Vivem a viuvez como doença contagiosa, perigosa e epidêmica.
Sexta de quase páscoa e resolvo, porque é a época do renascimento interior, abrir seus guardados.
Seus pertences, ternos gravatas e camisas, imediatamente após sua morte, foram retirados pelo irmão que se nega a sentir dor. Morrer, para ele, significa, até hoje, nunca existiu. Em dois dias ele finalizou com qualquer você que ele encontrasse pelo caminho. As crianças ficaram com as fotos, que eu tinha, e nada mais. Nenhuma peça, nenhuma relíquia, péssimas lembranças.
Sexta, madrugada de sábado, e acho que chegou a hora. Nunca disse a ninguém que todos os seus arquivos estavam aqui. Quando vi a desolação que ficou a casa, quieta, separei em pastas todos os teus papéis, que estavam aqui e ali, e juntos, guardei-os para mexer não sei quando.
Chegou o quando e sozinha, sentei para ver o que devo fazer de suas memórias.
Você guardou meus bilhetes de namorada... eu nem sabia. Separei na caixa verde. Caixa para pensar o que fazer. As contas, direto no saco preto, lixo. Rasgadas, picotadas, como era a sua vontade. Os impostos? Mesmo caminho. A jurisprudência me reservo o direito de ler mais tarde. São cansativas, para mim, até hoje.
Não larguei à toa meu curso de direito... entendi melhor seu trabalho mas, por outro lado, desisti com a certeza de não estar perdendo nada de importante para mim. Meu direito era você.
Encontrei o registro do nascimento das crianças, nossos termos de adoção das meninas pequenas, a receita da sopa do nosso primeiro. Uma das muitas fraldas que amarravam as pernas do segundo, para que sozinhas fossem formando sua bacia. Os primeiros cachos loiros da filha, que hoje é morena. Com algumas mechas que, tenho certeza, você não teria autorizado. A pulseira do hospital das duas molecas e, para lerem depois, o processo de adoção das meninas.
Brigamos muito com isso. Você não admitia que eu falasse em adoção perto delas. Quero te dizer: elas estão ótimas, e sabem, não só da adoção como adoram ouvir as loucuras que fiz para tê-las rápidamente perto da gente.
E encontrei uma senha. Fui ao seu micro e escrevi. Abriu como cascata, pastas, documentos. Três novos livros que deixarei para as crianças. Elas saberão o que fazer...mais tarde.
E vi cartas, muitas cartas. Em momento algum achei que fossem para outra pessoa que não eu. Por isso fui abrindo-as. Mas eram. Falavam de um marido que jamais imaginei. Coisas novas. Diferentes. Dolorosas.
Imprimi a primeira só para poder rasgar. Apertar a tecla delete era pouco para meu ciúme e raiva. A segunda que abri. Com três meses de diferença da primeira, marcava um encontro. Não quis saber. Pulei para o outro ano.
O nome havia mudado.
Voltei, já atordoada. A primeira era R. e a segunda, S. Oras se sou Maria, de onde saíram tantas letras diferentes? Continuei, soluçando, com essa busca tardia. Busca besta, a bem dizer. O que posso fazer agora, dois anos depois que morreu?
Se berrar muito alto acordo as meninas. Se sapatear, o vizinho de baixo reclama que não o deixo dormir. Mas a curiosidade, essa, me fez querer saber mais. Como se fosse possível novo sofrimento, dois anos depois.
Continuei lendo, abrindo e-mails, chorando. Para acompanhar resolvi tomar um scoth. Abri seu rótulo preto. Só para misturar com guaraná. Não nasci para whiskies, mas sim para vinhos. Abri um Udurraga. Acabei logo. Segui com aquele Côtes du Rhône que gostava de tomar quando ouvíamos Jazz. Que sempre achei uma coisa só nossa. Quando leio que pretende levar a quarta letra, a letra F., para ouvir jazz no All. Ah, juro homem, que meu sangue ferveu. Joguei da garrafa pela janela, mas arrependida, corri ver se não tinha machucado ninguém. Às quatro da madrugada realmente ninguém se apossa daqui. Se tu queria briga era briga que teríamos.
Abri a Cristal e joguei na mesma janela por onde mandei o vinho. Peguei da viúva, a Robert não a Clicot e também deitei janela abaixo. Os moços que na rua dormem, agradeceram meu acesso raivoso. Irritada com tantos nomes femininos em seus arquivos, pachorrenta, desci, madrugada mesmo, caixas e caixas de vinhos, uísques e pingas que fizeram meus homens de rua cada vez mais felizes.
— Agradeçam a ele, e apontei o céu, e não a mim.
— É a Páscoa, disse um deles, Deus morreu e tá chorando pinga hoje.
Não tive como não rir... ri, voltei pra casa e tranquei bem a porta. Você não me sai mais daqui até me dizer o que é essa profusão de letras femininas pulando em meus dedos.
A campainha toca. Horário estranho.
Era o Márcio, da padaria, querendo saber se eu realmente tinha dado aos moços toda aquela vinhataria.
— Por enquanto estou dando só os vinhos, respondi grosseira.
— Se for dar mais alguma coisa me avise, que atravesso a rua antes deles... ele riu, pobre Márcio.
Retruquei — Agora só dando o rabo.
É... estava brava. Não sou de responder e abomino as grosserias.
— Se for dar esse aceito também, respondeu Márcio. Ai desci, ou foi ele que subiu, mas estávamos rindo e tomando vinho em alguma hora que nem me dei conta.
Contei a ele da traição pós túmulo.
—Dona Maria, o falecido já faleceu mesmo, liga pra isso não.
— Você nunca teve marido, Márcio. Não sabe o que é isso.
— Ah, dona Maria, marido não tive não, mas esposa já tive algumas.
— Algumas, Márcio? Mas não quis saber. Hoje só me interessavam aquelas letras femininas. Em outra hora que também não sei predizer, ele estava mexendo no computador. Me chamou, sentou-me com cuidado e foi lendo uma enorme carta.
Uma despedida. Querendo morrer e não sabendo como, querendo deixar a pensão e sabendo que não poderia se matar, o falecido começou uma jornada à cata de doenças. Com tantas mulheres, conseguiu nenhuma doença, nenhum problema. Diabético que era. deixou escrito que começava ali o final do seu destino. Seu Beshér, destino, judaico-cristão. Aumentando a bebida, açúcares e outros proibidos. Realmente. Um ano após seu kismet literário, faleceu.
Suicídio voluntário sem arma e sem sangue.
Márcio pode até se consolar. Eu não.
Enterrei definitivamente o falecido quando cheguei na letra Z. Mulheres meio honestas não têm nomes começados pela letra zê.
Márcio desceu, deixei a porta destrancada. Não quero nunca mais que fiques aqui por perto. Saia que a porta está sempre aberta. Não tranco mais viva alma comigo.
E sua memória, deletei pela tecla FODA-SE.
Amanhã volto ao luto, que não curti. Ao preto que adoro usar. E à condição de viúva. Que atrai mais moços que mel e perfume.
E tenho dito... tenho...



Maria Odila dixit

05 fevereiro 2006

12. Presidência e Ais

Presidência e Ais - I
Ao pronunciar-se contra Cavaco, Santana Lopes feriu de morte todas as outras candidaturas.

Presidência e Ais - II
As muletas de Sócrates dão-lhe uma vantagem preciosa para defrontar Cavaco no difícil jogo do equilibro de poderes, que se avizinha. Cavaco, entretanto, já encomendou uma cadeira de rodas, duas arrastadeiras e um fato insuflável do género "sempre-em-pé" (cor de laranja), não vá o diabo tecê-las.

Presidência e Ais - III
80% do tempo desta campanha tem sido gasto a discutir o passado: o passado do candidato, o candidato no passado disse que, no passado o candidato fez assim e assado, o candidato está passado... É hora de desmistificar o passado. Assim, na verdade, Soares tem passado pelas brasas, nos troços de ligação entre arruadas, Cavaco tem passado assim-assim, porque lhe cai mal o lombo assado dos jantares-comícios, Alegre tem passado mal, com cãibras nas pernas, Jerónimo tem passado por bom rapaz, Louçã tem passado por Jerónimo e Garcia Pereira tem passado umas camisas a ferro, que se não for ele a fazer as coisas, também ninguém as faz. Pode agora falar-se do futuro?

Presidência e Ais - IV
Sondagem dá candidatos da esquerda taco-a-taco com a média nacional dos exames de matemática. "É uma poupança em gráficos que nem lhes conto", diz director de jornal. "Só precisamos de trocar o nome da disciplina pelo nome do candidato. Para o candidato da direita estamos a usar os quadros de um inquérito ao consumo de haxe em 20 escolas da Grande Lisboa. Qualquer coisa a rondar os 60 por cento já dá", adiantou, sem se querer identificar.

Presidência e Ais - V
Governo implementa sistema de moderação de comentários em Soares. A tecnologia, desenvolvida pela Haloscan, permite a monitorização e aprovação dos comentários do candidato sobre assuntos do Governo, pelo ministro responsável, mesmo com este ausente no estrangeiro. O primeiro teste seria levado a cabo hoje pelo ministro da Defesa, a partir da China, mas dificuldades na ligação via satélite aos estaleiros de Viana do Castelo impediram um resultado satisfatório.

Presidência e Ais - VI
Teoricamente, Alegre pode muito bem vir a ser o único candidato Alegre, na noite das eleições.

Presidência e Ais - VII
Jerónimo de Sousa garante ter conquistado 80% dos votos de Boas Festas na freguesia de Paio Pires.

Presidência e Ais - VIII
Garcia Pereira e Francisco Louçã disputam renhidamente os votos de "boas melhoras e rápida recuperação" dos acamados do Hospital do Barlavento Algarvio.

Presidência e Ais - IX
Viúva de taxista de Lagoa oferece os votos de pesar pelo seu falecido marido a Cavaco Silva.

Presidência e Ais - X
À revelia da Câmara de Lisboa, as noivas de Santo António entregam esta sexta-feira a Manuel Alegre 1374 votos de Felicidades ao Jovem Casal, 38 bouquets de noiva, um passe vitalício da Carris e um cartão-desconto do Cabeleireiro das Avenidas, válido até Abril de 2007.

Presidência e Ais - XI
António Guterres fez saber em Nova Iorque que se não tivesse engravidado Angelina Jolie não tivesse engravidado, era bem capaz de contar com o apoio dela, numa eventual candidatura de última hora à segunda volta das presidenciais e que mesmo assim ainda ia pensar. Guterres, recorde-se, é o português que consegue congregar maior número de apoiantes no estrangeiro, estimando-se que só os votos da África Sub-Sahariana já chegariam para lhe garantir uma vitória folgada. A candidatura, a ser lançada, terá o alto patrocínio do arroz Cigala.

Presidência e Ais - XII
Candidatos garantem apoios para uma eventual 2ª Volta: Cavaco assegurou hoje o patrocínio da Milaneza/Maia, Soares tem prometido o apoio da Paredes-Rota Móveis/BeiraTâmega e Alegre espera fechar amanhã contrato com a Barbot/Pascoal. Estão assim reunidas todas as condições para uma 2ª Volta disputada ao sprint, com as atenções voltadas para o desempenho dos candidatos na subida à Senhora da Graça. A organização e os direitos de transmissão televisiva estão nas mãos de João de Lagos, que já garantiu nomes sonantes da alta-roda mundial para as próximas 26 edições das Presidenciais.

Presidência e Ais - XIII
Louçã não consegue captar votos professados por religiosas de clausura, revela sondagem.

Presidência e Ais - XIV
Alegre propõe-se fazer de dia 22 uma festa da língua portuguesa. O candidato disponibilizou-se para declamar cadernos eleitorais junto de algumas mesas de voto e apelou para que os restantes candidatos façam o mesmo, estando apenas a aguardar luz verde por parte da CNE.

Presidência e Ais - XV
Garcia Pereira já mandou imprimir os 782 cartões "/agradece e retribui" com que vai agradecer os votos obtidos.

Presidência e Ais - XVI
Votar é um direito. Já os esquerdos, nestas eleições, são cinco.

Presidência e Ais - XVII
Votar é um dever. Bacalhau é um de comer. Autocarro é um de andar. Rádio é um de ouvir. Estamos entendidos?

Presidência e Ais - XVIII
Votar em branco é um acto de racismo?

Presidência e Ais - XIX
ÚLTIMA HORA: Pilar da Ponte apoia tabuleiro.

Presidência e Ais - XX
Sondagem dá vantagem ao 2 como resultado possível da adição 1+1.

Presidência e Ais - XXI
Era muito mais emocionante se as Presidenciais se decidissem através de pontapés da marca de grande penalidade.

Presidência e Ais - XXII
SONDAGEM: COMO ACHA QUE VAI SER A PARTICIPAÇÃO ELEITORAL NO PRÓXIMO DOMINGO?
[Manuel Albergaria, Rio de Moinhos]

"Olhe, Deus queira que haja uma corrida às urnas. É só o que eu peço. Nem que fosse só pinho, já dava para orientar o ano, se é que me faço entender."
Manuel Albergaria, agente funerário, Rio de Moinhos.

Presidência e Ais - XXIII
ÚLTIMA HORA: Santa Casa põe Grupo de Apoio ao Alto Premiado à disposição do vencedor das Presidenciais 2006. "É a nossa missão, prestar apoio e aconselhamento aos vencedores, pelo menos numa primeira fase, enquanto não se habituam à ideia. As pessoas acabam por nunca estar preparadas para uma coisa destas", disse fonte ligada à SCML por um cano de três polegadas, galvanizado.

Presidência e Ais - XXIV
Sala dos Espelhos do Palácio Foz esgotadíssima para a jornada de reflexão de amanhã. Bilhetes no mercado negro atingem já os 350 euros.

Presidência e Ais - XXV
A poucas horas do início do período de reflexão: vendas de Ajax Limpa-vidros disparam para o triplo.

Presidência e Ais - XXVI


Presidência e Ais - XXVII
Terminou a campanha. Agora é tempo de tomar um banho e ir para os largos, bailar com as raparigas namoradeiras e beber vinho novo em malgas de barro.

Presidência e Ais - XXVIII
Depois de falharem no Euromilhões da passada sexta-feira, 8.9 milhões de portugueses vão hoje tentar acertar no próximo Presidente da República.

Presidência e Ais - XXIX
Dos seis, só um se vai deitar Cavaco e acordar Presidente da República. Espero eu.

Presidência e Ais - L,VI
- (...) e eu, Aníbal António, prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.
Beijam-se. [GRANDE PLANO, EM CONTRA-LUZ].
Aníbal pega-lhe ao colo, salta para cima do cavalo e exclama:
- Para Belém e mais além. Yeeha! - afastando-se em direcção ao pôr-do-sol, sob o olhar cúmplice de Kid Sócrates. Mário e Manuel choram, abraçados. Jerónimo e Francisco seguram Garcia, que esbraceja. Rantanplan corre atrás do cavalo.
[TRAVELLING LONGO DA CÂMARA EM CONTRA-PICADO, AO SOM DE "A PORTUGUESA". FADE OUT. ENTRA O GENÉRICO]
Fim.

Presidência e Ais – Res Caldo
Parabéns a todas as freguesias que ficaram apuradas e boa sorte para o próximo sorteio.
Portugal mostrou mais uma vez a sua capacidade em organizar eventos desta dimensão, capazes de mobilizar o país de norte a sul, projectando lá fora a imagem de que uma vitória de 30 por cento sobre o segundo candidato (a par da conquista de 17 dos 18 distritos em jogo) pode ser, afinal, uma "vitória tangencial" de onde o vencedor sai fragilizado e em que a derrota da esquerda é lamentada pela "ausência mais candidatos à direita" por putativos candidatos da própria direita (P.S. Lopes et al, Lisboa, 2006). Matéria mais que suficiente para umas largas dezenas de case-study's reveladores das idiossincrasias nacionais, portanto.


José Nunes dixit

30 janeiro 2006

11. a ponte



Parávamos a meio da Ponte 25 de Abril. Se fôssemos rápidos, a coisa resolvia-se sem muitas chatices. Fazíamos o que tínhamos a fazer, metíamo-nos no carro, dávamos a volta a Alcântara e regressávamos a casa.

Por vezes, quando eram muitos ou quando tu te comovias particularmente, os minutos alongavam-se terminávamos por ter a companhia do carro da GNR. Perdi a conta ao número de vezes em que tive de explicar ao graduado de serviço ao que vínhamos. Cansava-me de explicar que embora fosses calada e eu te acompanhasse em silêncio, não éramos potenciais suicidas nem nos passava pela cabeça atirarmo-nos da ponte abaixo. Não éramos desses. Com o passar do tempo, acabámos por ficar conhecidos do pessoal do Posto e a vida tornou-se mais fácil.

O ritual era sempre o mesmo. Saías de manhã, bem cedinho. Apanhavas o barco das 05.15 para o Cais do Sodré e fazias a tua peregrinação de sempre pela Ribeira.

As bancas do peixe eram a tua perdição. Passavas horas naquilo. Pé após pé, fazias quilómetros dentro do Mercado. Alinhados nas pedras, cobertos de gelo, os peixes fitavam-te, olhos nos olhos. Descobrias entre todos eles os mais infelizes, os mais desalinhados, os mais desconsolados. E, invariavelmente, comprava-los todos.

Carregada com os peixes mais tristes do dia, retornavas a casa. Na manhã que te sobrava e durante toda a tarde, celebravas as exéquias devidas: vestias-te de negro, oravas, meditavas e choravas. Depois, quando o turno da Setenave terminava e eu regressava a casa, comias em silêncio a malga da sopa e o pão escuro e duro que nela demolhavas. Depois esperávamos até que a tabela das marés que tinhas sempre contigo te indicasse a hora certa para a viagem - confesso-te que, de todos os rituais que tu tinhas, essa espera era o momento que mais me custava a passar. Dizias que não querias que eles fossem dar a Vila Franca ou que apodrecessem no Mouchão de Alhandra. Que com a maré vazante eles descansariam em paz eterna, no oceano profundo. Que do mar vieram e ao mar retornariam, algas às algas, areia à areia. E eu acreditava.

De mãos nos bolsos, imóvel sobre o tabuleiro, indiferente aos carros que travavam e apitavam, ficava a ver o teu choro triste quando te despedias deles e os lançavas um a um da ponte abaixo. Pescadas, corvinas, cações, salmonetes, toda a espécie de peixe de todo o mar de Portugal era objecto da tua compaixão diária, do teu luto desenfreado.

Sabes bem que nunca te quis mal, amor. Sabes bem que me era muito difícil poder pagar todos os peixes que compravas, que a vida foi sempre madrasta para nós, que tudo se tornou cada vez mais difícil depois da fábrica ter fechado as portas.

Quero que saibas que penso muito, muito em ti. E que choro muito, mas mesmo muito, sempre que aqui na prisão nos servem pescada cozida ou carapaus com molho à espanhola. Nesses dias, nada como. Passo fome. E grito. Grito como tu gritaste quando naquele dia te empurrei em direcção à paz eterna no mar profundo.


Alexandre Monteiro dixit

29 janeiro 2006

10. (post circular n.º 4)


o homem que descobre uma mulher
será sempre o primeiro a ver a aurora.
Bruna Lombardi - Uma Mulher





primeira fala

Sou eu, a abrir a porta do quarto, e a olhar para ti deitada na cama gigante com dossel. Sou eu, que numa voz reservada chamo por ti: vem! Sou eu que, momentos depois, te dispo em frente do espelho porque gosto de te ver, e digo: gosto de te ver. E dispo-te. e digo: quero foder-te, agora. Sou eu que te agarro nos meus braços e, secretamente, sem que te diga, julgo encontrar a resolução do problema maior: porque existimos? Agora sei, amor, que é para estarmos os dois despidos em cima desta cama, para nos amarmos com esta necessidade de desaparecermos. Sou eu, quem te toca nos seios, te beija os seios. Sou eu que te agarro, sou eu que sou agarrado por ti. Sou eu, essa língua que sentes afogar-se no teu corpo, esse pénis ardente que morre em ti como se nascesse. Sou eu que afago as metáforas com que te possuo. Sou eu.



Porque me despes completamente
sem que eu nem perceba...
E quando nua
por incrível que pareça
sou mais pura...
Porque vou ao teu encontro
despojada de critérios...
liberto os mistérios
sem perder o encanto
do prazer...
Porque
quando nua
sou única
e exclusivamente
tua...
Isabel Machado - Nua



mónica gostava que ele lhe metesse as mãos entre as pernas enquanto ainda estava vestida: os dedos a afastarem a seda das meias, a tentarem alargar o cinto de ligas, a deslizarem na pele macia das coxas, a insinuarem-se já pelo caminho dos pêlos até à humidade quente dos lábios grossos, salientes e largos da vagina, onde sentia pulsar um perturbante coração afastado.
Ou uma boca cheia de sede.

dizes-me caminho contigo nua por dentro dos olhos e eu aqui a pensar com que essência hei-de perfumar este corpo para que na tua boca só o sabor da minha te ocupe. a sede cheia da tua boca.
ou deixar que me ates a esse teu dia e caminhe contigo
assim por dentro dos teus olhos.
e onde estiveres virás sempre em mim. assim. secretamente.


deixava que as pernas subissem, os pés roçando os ombros, mas primeiro como se hesitassem, numa espécie de abraço em torno do pescoço; depois, desciam de novo até aos ombros, abertas. Oferecendo-se, enquanto Pedro começava a lamber-lhe, ao de leve, as virilhas com o seu cheiro a fruto; um pequeno suor salgado a insinuar-se por dentro da saliva, dissolvendo-se na língua. E o sussuro, o gemido, eram tão baixos que ninguém saberia determinar de qual dos dois partiam.
Assim, vestidos.

dizes-me não esperarei um só segundo para me deitar no teu corpo. tenho a urgência em forma de pele e quero colher de ti esse fruto de silêncio. dizes-me não esperarei despir o teu corpo para me deitar nele. entrarei pelos teus olhos pela tua boca e descerei aos abismos mais quentes do teu ventre. dissolvendo-me no pequeno lago salgado entre os teus lábios. e se um gemido se colar à nossa pele é porque é de sussurros que os nossos corpos se fazem
e desfazem
entre as nossas mãos. um só pedaço de ti e saberia refazer-te
toda.

desde o princípio, como gostava, logo depois de chegarem ao quarto da pensão pobre por onde ele a arrastava, ambos de respiração suspensa, subindo depressa os degraus da escada nauseabunda, penumbrosa, madeira lascada, gasta pelo tempo. Pedro, excitado, parava a meio para se esfregar nela, e Mónica quase gritava de gozo, prazer que isso despertava nela, curvada sobre o intenso cheiro almiscarado que o pescoço dele guardava, odor a cortar-lhe a respiração, entontecida e sôfrega.
"Não me quero vir já..." murmurava ele a morder-lhe os pulsos febris, breves, algemados pelos seus dedos à parede esburacada. E continuavam subindo a escada, sem fôlego, até ao último andar, patamar onde aparecia uma mulher gorda e pintada, que nas primeiras vezes lhe perguntou a idade - "por causa da polícia...", explicou; mas que nos meses seguintes se limitava a conduzi-los, sem palavras, até ao quarto que lhes alugava, quase vazio. Uma cama, uma cadeira, um candeeiro e um espelho chegavam-lhes durante as horas que ali passavam, nas quais só queriam beber-se, devorar-se um ao outro, misturando os sucos, o cuspo, o prazer, partilhando a posse.
Às vezes Mónica gritava.

dizes-me quero comer de ti a carne macia e rosada entre as tuas coxas. gritar-te por dentro que és minha e
sobre o cheiro intenso que te deixo
imprimir-te as minhas mãos e o meu sexo ardente
como dentes. morder-te a nuca e entrar em ti com a fúria toda de homem. não.
não chega devorar-te o corpo. é nos teus seios
ou entre as tuas pernas que quero todo o meu corpo.

pedro punha-lhe então sobre a boca a palma da mão, que ela mordia, e explodia dentro dela, o corpo muito magro erguendo-se, febril, enquanto a via continuar ainda e ainda revolvendo-se, os dedos excitando-os dentro de si, enquanto se ia masturbando ao mesmo tempo.

dizes-me não sei que fazer a este desejo intenso a este cheiro a mim e a ti
que se cola aos meus dias e
me transporta para aí
onde estás e me reténs. eu sei os teus dedos de cor
e com eles viajo por dentro de ti. cada um prolonga uma parte
do meu corpo. a boca de língua que te penetra
as mãos que te puxam e seguram entre as minhas coxas
e um meu sexo febril que te procura. não há lugar nenhum onde eu
saiba mais de mim
que em ti. caminhar contigo nua
assim
por dentro dos olhos é morrer a cada espasmo. e
reviver a cada vez que te dás. que me dou.

a terra é uma cama gigante. em cada rua eu te possuo com
um nome diferente. em cada rosto eu te olho. e se não chegasse
para enlouquecer de desejo
olho o meu corpo e nada nele nega a tua presença.

o dia a noite e
o céu esse dossel que nos cobre e esconde
dos olhares dos outros servem-nos de quarto. deito-me em ti em cada hora
e em cada vez te inundo do meu sémen. emprenho-te com este segredo
e já és minha mesmo sem o saberes.

volto a ti. nua. deitada. para mim. só para mim.


( pausa. digo-te de mim: nua. deitada. para ti. só para ti. desvelo
entre as coxas o segredo do teu corpo - em cada lugar do meu corpo
a tua língua deixou um rasto. e é o teu cheiro que cheira
na minha pele. e o teu sémen
que me nasce
lenta
lentamente. agora. aqui. enquanto escrevo.)

espasmo: que fazer com estas mãos e estes olhos
que te esperam. pausa: faremos amor como quem não nasceu
para outra vida.


Wyeth; segunda voz: maria teresa horta- "Mónica", in intimidades e blimunda


Luís dixit

25 janeiro 2006

9. dia 31 de outubro, 2041 / dia 24 de junho, 2028



(dia 31 de outubro, 2041)

I

Não fosse o barulho da cidade em movimento, neste fim de tarde, suficientemente agressivo, o silêncio dos pássaros tornar-se-ia desesperadamente ensurdecedor. Olho-os, percorro o seu trajecto agitado, e não os ouço. E eles voam em torno das árvores, tantos ... e eu não os ouço ... seria hora de acordar aflito, se ...
... mas não sonho.
Esta angústia remonta a uma antiga intuição,

... com a obra morre a ideia ... ... com a morte vê-se o silêncio ...
“... são almas que choram, ...”



As pessoas que me evitam, apressadamente, afastam-me o pensamento dos pássaros e olho em redor. Encaminho-me para aquela igreja - na falta de uma gruta, uma catedral...

À porta, cumprimento o mendigo (há sempre um mendigo à porta das igrejas). Apetece-me sentar a seu lado e pedir-lhe um pouco de pão, pretexto que a seus olhos seria válido para legitimar, pela fome do corpo, a nossa irmandade na solidão do espírito.

Sento-me e não lhe peço nada ... mas anuncio-lhe com tristeza: "os pássaros morreram".
Ele já sabia, levanta-se e afasta-se apenas para não ter de enfrentar a minha inocência.
Não entro. Deixo-me ficar sentado, indiferente ao que as pessoas vão pensando enquanto por ali passam. Os nossos olhos cruzam-se por vezes, e apesar de a minha aparência não provocar o habitual desviar do olhar e da misericórdia, o insólito da minha postura inexpressiva traz à superfície aquele tipo de sentimentos que, como a compaixão, nunca vêm sós. E é numa mistura emocional que alguns aceleram o passo, enquanto outros, por associações tão pessoais que não se enumeram, não hesitam em contornar-me e, sem deixar de com o olhar mo agradecer, entram na igreja.



3. imponderável charme de morte

(deste lado)

I

Ao fundo, o negro das roupas que vestem o silêncio confunde-se com as paredes nuas e sujas. Mesmo a luz que consegue tenebrosamente entrar, apenas contribui para o contraste dos cinzentos (quase amarelecidos, é certo, em algumas horas do dia).
A regularidade a que os bancos corridos se distanciam faz-nos recordar as ondas, as nuvens, os socalcos ou os telhados dessa cidade que já não há – cidade invisível, dos nossos sonhos de ontem...
De cada lado, as figuras perguntam-nos silenciosamente as horas, ou melhor, questionam-nos sobre o tempo (pois para a eternidade da pedra ou da madeira o tempo é o único assunto que realmente lhes importa). Os seus olhos levam-nos sempre a tentar localizar historicamente a sua origem, como se o sofrimento que lhes deu “vida” pudesse ter outra explicação que não os vícios da nossa própria falta de fé, a maldade sobre-humana de alguns de nós ou a miséria escondida nos intestinos da alma de todos. Mas quando paramos muito tempo diante de cada uma destas santas representações, a infantilidade do espírito ultrapassa a mera contemplação e quase nos deixa voar pelo imaginário, que está sempre iluminado pela presença ingénua da esperança.
Sob os nossos pés, aqui e acolá, emerge um grito abafado até então pelo pó da história. Nessa altura escutamo-lo encantados, como se sempre tivéssemos sabido que da morte se levantam hinos surdos, à nossa procura, e que nem a pedra que se lhes assenta em cima os faz cair na luz do silêncio.
Em cima, o céu deixou-se esculpir na pedra em formas severas – como se Deus se estivesse sempre a espreguiçar, para com os braços eternamente abertos melhor nos guardar e proteger; ou ainda, para de forma piedosamente infeliz nos tocar a todos com carinho e nos fazer acordar do sonho de existir sem Ele.

As roupas que vestem de negro o silêncio movem-se imperceptivelmente para junto do leito macabro, almofadado para conforto dos vivos na assunção de cumprido o atemorizador dever para com os mortos. O jardim que em redor se desenvolve, em formas curiosamente circulares, quase faz esquecer o significado da cor das faixas de seda que o ornamentam.

O morto, como cidade invisível também, repousa de olhos por outrém fechados, e espera...


__________

nota do editor do blog:

este texto foi escrito no dia 6 de março de 2062, data que já foi aludida antes: o Professor morreu na véspera, dia 5. ainda não é possível determinar com rigor a relação entre este texto e o escrito em 2028. não foi possível determinar também, com certeza, se este texto se refere ao facto do dia anterior, ou se teve um carácter completamente ficcional, que apenas por coincidência macabra se inscreve nessa sequência cronológica. Talvez apenas quando se nos tornar clara a relação real ou possível entre o Professor e o narrador deste texto esta questão seja ultrapassada. Temos em mãos o estudo de algumas cartas que esperamos venham a trazer alguma luz sobre a origem destes textos. Também ainda não foi possível escutar o quarteto de cordas de cujas notas de programa é citada a frase com a obra morre a ideia. Esperamos que o interesse de cada um dos fragmentos que vamos partilhando não diminua pela falta de dados biográficos. Os leitores serão elucidados sempre que alguma informação relevante seja revelada.



(dia 24 de junho, 2028)

II

Ainda bem que nenhum vértice representa o fim, mas apenas uma mudança de direcção. Quando nos sentimos próximos do fim, não temos sequer a ilusão de caminhar para lá de vértice algum; ou seja, o horizonte plano e tranquilo da visão do fim acaba por ser mais perturbador que a sensação de viragem de rumo, mesmo para o desconhecido. Quantos ângulos tem a vida? Provavelmente não será a circunferência a forma mais perfeita, mas sim o triângulo (sem quaisquer conotações teológicas, por enquanto – estou só a tentar compreender as vantagens metafísicas de três vértices ...).
Enquanto penso nesta idiota construção geométrica da existência, medida em vértices de esperança assustadora, a escuridão que me envolve murmura ruídos de lado nenhum, barulhos ínfimos que só se ouviriam por um louco ou por mim, tal a minha concentrada imaginação. Cerca-me o vazio, eu sei, mas o vazio não é só silêncio.

(“As cousas que me cercam, silenciosas,
São almas, a chorar, que me procuram”
Teixeira de Pascoaes )



(dia 24 de junho, 2028)

III

Em fase de revisão? De há quanto tempo, no futuro, me observo? Que pena um personagem não poder partilhar com o seu autor um só momento de mútua existência. Sobrepor-se-iam como dois espectros coloridos? Atravessar-se-iam como fantasmas? (de quem? Mais confusão, por agora não, obrigado) ... No entanto, a perspectiva de um encontro não deixa de ser mais angustiante do que a noção da irrealidade da nossa vida. Ser em alguém (mesmo num futuro interior) não será melhor que Ser em si ?
Futuro interior ... o Tempo aqui dentro bem junto ao nariz da alma, meu caro amigo...



(dia 24 de junho, 2028)

IV

Levanto-me e a manhã sabe-me a cinza, a pó. Talvez seja da madeira do chão, do tecto, ou apenas de mim. Tenho frio. Ouço passos; estou sozinho. Ouço passos novamente. Sobre a cadeira a roupa remexe-se desalinhada, como que acordada de um sonho em que vestia um príncipe. Os passos eram dele, e agora que saiu, ajudo a roupa a encontrar-se consigo mesma, vestindo-a no meu corpo.
Olho para a janela fechada e penso vagamente na hipótese de nada existir para além dela... nem sequer o vazio. Aproximo-me da porta e esta limitação espacial irrita-me. Preferia Ser sem Espaço, ou pelo menos sem Forma, o que já seria suficientemente delimitador. Com um sorriso, ironicamente, a porta convida-me a sair ...
Aceito.
No corredor a ausência de plantas surpreende-me.
Regresso e penso ...



(dia 24 de junho, 2028)

V

O Triângulo apresenta contudo a grande desvantagem de não elaborar satisfatoriamente a ideia de não-retorno. Tento ainda imaginar um triângulo em espiral ...


(ver NOTA)


Mas a não-sobreposição no retorno, apesar de presente, não é definida pelo número de vértices, pois o problema é comum a todas as formas fechadas; é a própria ausência de sobreposição mais importante que a Forma. É pena, pois a ideia inicial agradava-me intuitivamente. Lembro-me do meu autor lá adiante (não sei em que direcção) e penso que a nossa sobreposição estaria sempre correlacionada com a sua morte, pois que eu lhe sobreviveria (como qualquer personagem). E neste momento? Poderia matar o meu autor com este pensamento? Sentirá ele na sua imaterial memória a ameaça da futura aniquilação dos sentimentos?




NOTA: no manuscrito que aqui se transcreve, existia um esquisso, algo rasurado (deduzimos que por hesitação teórica ou falta de firmeza no traço), em que o presumível autor deste fragmento tentou ilustrar o esquema mental a que se refere - uma espiral constituída, não por uma forma elíptica ou circular, mas por uma forma triangular. Diz-se agora que "existia" um esquisso, porque à data em que se tentam reunir os elementos que permitam entender de que forma estes fragmentos nos elucidam acerca do seu autor, descobrimos um pedaço deste mesmo texto, com data por confirmar ainda, no qual não parece ter havido lugar a tentativa alguma de ilustração gráfica. Ainda não foi possível determinar sequer se estamos em presença de momentos diversos do mesmo pensamento, ou simples tentativa de reformulação (na hipótese, plausível por agora, de que sejam do mesmo autor). Sobre a representação gráfica, e dada a quase ilegibilidade do traçado definitivo, perdido entre outros riscos aparentemente inúteis, decidimos omiti-la nesta transcrição, reservando essa divulgação para um momento mais avançado do estudo destes manuscritos.


Jorge Pereira dixit

21 janeiro 2006

8. baloiças a mão


o ar. em volta. revolta-se. e não se entende uma única imagem. que a tua mão. baralha. sobre a têmpora do mar. e não há mar. adiante. e não há estrada nem carros. nem pulsos cortados. nem amor. embrulhado em fatias de papel.
congelado no coração. mexes. a mão. como se dançasses imóvel. dentro das veias. e no sangue. os teus pés. tocando o chão. do céu. estás dentro da tua mão. mexes. e não se ouve. torneiras. gotejando. estás dentro da tua mão. vazia. baloiças. e mexes. e não se ouvem pássaros no céu. e não há noite. e não há. céu. já.

dizes.

quero que todas as árvores. baloicem. e que não haja vento para todos os ramos. e que a minha mão. as destine a um lugar comum. e que não se sintam sós. com o meu castigo.

e a mão. silencia-se. dentro. do corpo. imóvel.


joão dixit

7. testemunha


que sejas. o mar. afogando-te. e que sejas os restos de areia. que a praia. depositou. nos meus sapatos. e que o mar. te veja. como defunto. de um dia que nunca passou. aqui.

e olhando. que nunca se veja. a direcção que tomei. ao longe a tua boca. fala. a tua boca. longe. mora ao lado. da minha. boca. longe. e não se ouve um beijo.

e quero. a rua numa estrada. quero a estupidez. nua. da falha de amparo dos teus braços. abraços. e guardar-te. num eco. deixando a despedida para outro inverno. era um erro.

cinzento. como se fosses a pureza no papel. és um fantasma incolor. cinzento. sem cor. e o acorde esguio. e contínuo. um fá. um sol. menor. e um mi.

o teu gesto. o teu movimento. o teu sono. e o virar de rosto. para o rosto da cama. o teu choque sobre o colchão. engomado pela viuvez. sem esperança da tua brancura. da tua noite. dormindo. e os dedos que me falham. e os olhos que me cegam a mais pequena loucura. de te temer. debaixo. da outra parte do meu corpo. entre as tuas pernas. doces. entre o meu estômago. vazio de silêncio.
como fome. de te comer. todos os centímetros. quentes. da tua sombra. viva.

passam. todas as horas. num dia. de segundo. de segundo. em segundo. até. que se fecham. os corredores. da casa. onde eu. e tu. e eu. e tu. moramos. desfazemos todas as paredes. e contamos os buracos. no estuque. amo-te. amo-te. e atravessam-se. os pés pela terra. que aos poucos aboliu a lei. de oração. e já. não podemos dizer. coisas sobre a parede. sobre o estuque. e todos os buracos.
quantos
visto-me. de ti. e o boato espalha-se. trouxeram-te de volta à terra.


joão dixit

20 janeiro 2006

6. A Razão do Caso


Há palavras lixadas no vocabulário nacional. Daquelas que têm tantos sentidos que deixam um estrangeiro esquizofrénico e só são entendidas em contexto pelos nacionais porque na realidade a esquizofrenia faz parte da nossa portugalidade. "Caso" é uma dessas palavras. A aplicação desta palavra em contextos diversos assume significados múltiplos que só os portugueses conseguem descodificar.
“Ter um caso”, por exemplo, implica necessariamente a presença de alguém que partilha esse caso connosco. Para se ter um caso, tem que se ter um caso com alguém. Nunca se pode ter um caso sozinho, ou na pior das hipóteses pode-se, mas teremos simultaneamente de “ser um caso clínico”.
Quando dizemos “um caso sério” já não estamos a falar de relações fortuitas entre pessoas, porque “ter um caso” é algo que, supostamente, não é sério. Se fosse sério não seria um caso. Seria uma relação. Isto significará portanto que qualquer relação é “um caso sério”.
“Não fazer caso” é algo que fazemos sozinhos sem que nos acusem de padecer de qualquer desarranjo mental desviante. Mas é algo que não podemos fazer numa relação sob pena de nos acusarem de falta de atenção. Se tiverem uma relação, sigam este conselho: façam muito caso, mas daquele sério, ok? Porque se for do outro não terão essa relação por muito tempo. Adiante…
“Estar a trabalhar num caso” não significa estar a arrastar a asa a alguém. Implica desenvolver uma profissão normalmente ligada à área jurídica, ou de investigação policial. Se ter um caso é algo que se desenvolve como exercício de lazer, trabalhar num caso implica uma especialização profissional.
O caso também pode ser entendido como causa para um determinado efeito. E aí chama-se “caso para isso”. Por exemplo, um homem descobre que a sua mulher teve “um caso” com o padeiro, fica muito enervado, acha que aquilo é um “caso sério” e fica prontinho para arrear um camaçal de porrada naquele cabrão enfarinhado. É nessa altura que um amigo lhe diz “Oh pá, não é caso para para estares tão enervado, deixa lá as coisas connosco que a gente esta noite rebenta-lhe com a padaria toda”. Se o cornudo “não fizer caso”, alguém no dia seguinte vai “trabalhar no caso” da padaria que implodiu no centro da cidade. E explicar isto tudo a um estrangeiro?


Humor Negro dixit